segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Caranguejola.


CARANGUEJOLA

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.
Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Para quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito para festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!
Noite sempre pelo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Pelo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...
Se me doem os pés e não sei andar direito,
Para que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...
De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...
Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
Para que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. C'o a breca! levem-me p'rá enfermaria -
Isto é: p'ra um quarto particular que o meu pai pagará.
Justo. Um quarto de hospital - higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo...
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Mário de Sá Carneiro


Mário de Sá Carneiro nasceu em Lisboa a 19 de Maio de 1890 e foi um poeta contista e ficcionista português. Foi um dos rostos do modernismo em Portugal e conceituado membro da geração Orpheu.

Começou a escrever poesia com doze anos e aos quinze já traduzia autores como Victor Hugo, Goeth e Schiller.

Matricula-se na Faculdade de Direito em Coimbra onde conhece Fernando Pessoa, figura que viria a tornar-se o seu melhor amigo.

Uma vez que não fez nenhuma cadeira do curso de direito foi para Paris com o objectivo de continuar os estudos superiores na universidade da Sorbone. Cedo de dedicou a uma vida boêmia chegando até a passar fome levando a um total desespero, tendo se envolvida com uma prostituta.
Foi em Paris que compôs grande parte das suas obras poéticas e correspondência com o seu amigo Fernando Pessoa.

Já em Lisboa associando-se a Fernando Pessoa e Almada Negreiros constitui o primeiro grupo modernista português, sendo responsável pela edição da revista Orpheu.

Regressa a Paris onde se suicida em 1916. Apesar de curta a sua carreira literária foi muita rica tendo escrito obras como:

· A confissão de Lúcio (1913)
· Depressão (1914)
· Céu em fogo (1915)

Fonte: http://poetasportuguesesecxx.wikispaces.com/

6 comentários:

Andradarte disse...

Faltam sempre estas informações, nos meus posts de poetas prtugueses...Gostei de saber.....
Quanto à tinta aplicada, é tinta de alto fogo,sobre azulejo vidrado cru, que depois vai à Mufla a 1000º mais ou menos.
Obrigado pelo interesse.
Abraço

Wanderley Elian Lima disse...

Um poema absolutamente diferente dos convencionais. Não conhecia o autor. Adorei.
Grande abraço

Everson Russo disse...

Interessante o poema,,,diferente dos que a gente ve por ai...abraços de otima semana pra ti amigo.

Sandra Botelho disse...

meu amigo, que beleza de escritos, me perdi, lendo e relendo...
Bjos achocolatados

Valéria Sorohan disse...

Palavras na medida exata da minha necessidade. Bom vir aqui.

BeijooO*

Olívia Comparato disse...

Parabéns pelo seu blog, pelas sensíveis postagens!
Abs

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