sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Recusa

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RECUSA


Do silêncio ou do cárcere cativo,
Contando um dissabor a cada instante.
Não tem meu coração bater vibrante,
Não sei se morto estou ou se estou vivo.


Para este meu viver tão purgativo.
A tepidez deste teu ronco arfante,
Teu carinho e teu beijo provocante,
Não trarão alegrias e lenitivo.


Sem tua voz eu ouvir, ou se eu ouvisse,
Tuas palavras doces, sonorosas,
Cheias de encanto e cheias de meiguice.


Surgiram-me raios de esperança.
Prazer, claras manhãs, tardes de rosas,
Porque de amar meu coração não cansa.


R.S. Furtado.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Revelações


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REVELAÇÕES

Recebi da amiga Maria Madalena o desafio de completar estas cinco frases.

Eu Já...
Eu nunca...
Eu sei...
Eu quero...
Eu sonho...

Estas são minhas respostas:

Eu já não suporto mais um mundo tão vil, com tanta maldade.
Eu nunca pensei participar de uma sociedade tão rude e decadente.
Eu sei que só DEUS o consertará, com a sua infinita bondade.
Eu quero e peço uma solução a ELE, que é tão solícito e complacente.
Eu sonho com a certeza desse sonho se transformar em realidade.
Eu vou brindar com a ascensão e a felicidade de todo o ser vivente.

Ob: A sexta frase é cortesia da casa.

As regras são designar cinco blogs, que devem indicar de quem receberam o convite.

Livinha do blog: http://livinha27.blogspot.com/
Fátima do blog: http://vivereafinaroinstrumento.blogspot.com/
Andresa do blog: http://coisinhasdebibiba.blogspot.com/
Helô do blog: http://felina-mulher.blogspot.com/
Lili do blog: http://africaempoesia.blogspot.com/

Gostaríamos de deixar bem claro que o fato de termos indicado somente cinco amigos, deu-se ao fato da exigência da regra, porém, a mesma regra, não nos impede de estendermos o desafio a todos os nossos amigos seguidores, bem como, a todos aqueles que nos visitam e estão sempre acompanhando o nosso trabalho, o que muito nos honra.

Beijos,

Furtado.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Poema do nadador

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POEMA DO NADADOR


A água é falsa, a água é boa.
Nada, nadador!
A água é mansa, a água é doida,
aqui é fria, ali é morna,
a água é fêmea.
Nada, nadador!
A água sobe, a água desce,
a água é mansa, a água é doida.
Nada, nadador!
A água te lambe, a água te abraça
a água te leva, a água te mata.
Nada, nadador!
Senão, que restará de ti, nadador?
Nada nadador.


Jorge de Lima.
(1895-1953)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Retrato

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RETRATO


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil
– Em que espelho ficou perdida
a minha face.


Cecília Meireles.
(1901-1964)

domingo, 22 de novembro de 2009

Incompreensão

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INCOMPREENSÃO


O senhor nos legou com suprema bondade,
Este mundo ideal, generoso e criador.
Indicando o dever de honradez e lealdade,
Ao cultivo do bem, ao cultivo do amor.


No entanto, só campeia impudor e maldade,
Manchando a candura espalhando terror.
Em lugar da justiça e da nobre verdade, 
Acolhe-se mentira e nega-se o valor.


Acata-se a violência, acusa-se o que é terno.
Desdenha-se a moral, a descrença persiste,
Pois só incompreensão a humanidade ostenta,


Este mundo ideal transforma-se em inferno.
Hoje um edil não é porque a verdade é triste,
“Tudo o que o céu despreza a terra se avarenta”.


R.S. Furtado.

sábado, 21 de novembro de 2009

Irene no céu

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IRENE NO CÉU


Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.


Imagino Irene entrando no céu:
– Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
– Entra Irene. Você não precisa pedir licença.


Manuel Bandeira.
(1886-1968)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Na fazenda

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NA FAZENDA

Dorme ainda a fazenda: ao longo da varanda
Repousa o boiadeiro em couros estendidos;
Desponta no horizonte aurora froixa e branda,
No meio do terreiro o cão solta ganidos!

Mas nisso de repente escutam-se alaridos,
Dum sino que desperta estruge a voz nefanda;
Começam a soar conversas e balidos
E a ordem de rigor que rude aos negros manda!

Chegou o começar das lides e trabalhos,
Ressoam do feitor os brados e os ralhos:
A boiada desfila à porta do curral.

Os pretos esfregando os olhos sonolentos
Levando samburás lá vão a passos lentos
Da porta da senzala ao denso cafezal!

Afonso Celso.
(1860-1938)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sonetos

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SONETOS

Doce Amor – a sorrir-se brandamente
Em sonhos me falou com tal brandura,
Que eu só de o escutar vida mais pura
Senti coar-me n’alma fundamente.

Depois tornou-se o tredo fogo ardente
Que o instante, o ano, a vida me tortura.
Bem longe de gozar tanta ventura,
Cresta-me o rosto agora o pranto quente.

Homem, se homem és no sentimento,
Não zombes, não, de mim tão desditosa,
Nem seja o teu alívio o meu tormento.

Deixa-me a teus pés cair chorosa,
Soltar no extremo pranto o extremo alento,
Que eu morrendo a teus pés serei ditosa.

Gonçalves Dias.
Rio de Janeiro, 6 de novembro de 1847.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Maria

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MARIA

Onde vais à tardezinha
Mucama tão bonitinha,
Morena flor do sertão?
A grama um beijo te furta
Por baixo da saia curta,
Que a perna te esconde em vão...

Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com mêdo de ti!...
Levas hoje algum segrêdo...
Pois te voltaste com mêdo
Ao grito do bem-te-vi.

Serão amôres deveras?
Ah! Quem dessas primaveras
Pudesse a flor apanhar!
E contigo, ao tom d’aragem,
Sonhar na rêde selvagem...
À sombra do azul palmar!

Bem feliz quem na viola
Te ouvisse a moda espanhola
Da tua ao frouxo clarão...
Com a luz dos astros – por círios,
Por leito – um leito de lírios...
E por tenda a solidão!

Castro Alves
(1847-1871)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Primeiro aniversário

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PRIMEIRO ANIVERSÁRIO

AOS NOSSOS QUERIDOS AMIGOS!

Exatamente no dia 16 de novembro de 2008, o Arte & Emoções fez a sua primeira postagem com o título TABAGISMO: VAMOS LARGAR? Apresentando um método que criei, com a finalidade de deixar o vício do cigarro. Como o resultado foi positivo, pois larguei o vício que já perdurava por cinquenta e hum anos, resolvi que deveria torná-lo público, pois, quem sabe, alguém poderia querer utilizá-lo e tentar lograr o mesmo êxito que eu. Daí continuei postando algumas baboseiras que escrevo, inclusive, um programa para criação de empregos, enviado na época, para o nosso presidente LULA e para o senador Paulo Paim e postado com o título PROEMP E O DESEMPREGO. Postei também alguns valiosos artigos de autoria de um grande e inesquecível amigo, Otacílio Negreiros Pimenta, que DEUS o abençoe e o guarde e, visando divulgar grandes obras de grandiosos nomes da “Literatura Brasileira” como: Castro Alves, Machado de Assis, Artur Azevedo, Gonçalves Crespo, Luís Delfino, Gregório de Matos, Alberto de Oliveira, e tantos outros, resolvi publicá-las, pois, com certeza muita gente não as conhece.

Portanto, hoje o Arte & Emoções está completando o seu primeiro ano de existência e, se chegou aonde chegou, foi graças a DEUS e a todos aqueles que, seguidores ou não, nos visitam e nos prestigiam através dos seus comentários com belas palavras de apoio, que somente nos estimulam a continuar.

Queremos aqui, agradecer a todos indistintamente e dizer que o sucesso do Arte & Emoções deveu-se a atenção e ao apoio que têm dado ao nosso trabalho e, portanto, esta comemoração é extensiva a todos.

MUITO OBRIGADO DE CORAÇÃO!

Beijos nos corações.

Rosemildo Sales Furtado.

sábado, 14 de novembro de 2009

Luz entre sombras

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LUZ ENTRE SOMBRAS

É noite medonha e escura,
Muda como o pensamento,
Uma só no firmamento
Trêmula estrela fulgura.

Fala aos ecos da espessura
A chorosa harpa do vento,
E num canto sonolento
Entre as árvores murmura.

Noite que assombra a memória,
Noite que os medos convida
Erma, triste, merencória.

No entanto... minh’alma olvida
Dor que se transforma em glória,
Morte que se rompe em vida.

Machado de Assis.
Do livro Falenas – (1870).

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O bêbado

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O BÊBADO

A vista turva, o crânio atordoado,
Nada o entristece nem tampouco o encanta.
Tomba, tropeça, cai e se levanta,
Vai cair mais distante, do outro lado.

Julga que a bebedeira. O desgraçado,
Os seus desgostos trágicos espantam.
Esbraveja, sorri, às vezes canta,
Talvez algum lampejo do passado.

Vive, e, não sabe ao certo se tem alma,
Fogem-lhe os dias, e ele jamais sente,
Ruir-lhe do vício o cansaço tão voraz.

Se acaso, o sono, o cérebro lhe acalma,
Ele após despertar, pensa somente,
Em ir para a taverna beber mais.

R.S. Furtado.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Aos caramurus da Bahia

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AOS CARAMURUS DA BAHIA

Um calção de pindoba, a meia zorra,
camisa de urucu, mantéu de arara,
em lugar de cotó, arco e taquara,
penacho de guarás, em vez de gorra.

Furado o beiço, sem temer que morra
o pai que lho envazou cuma titara,
porém a mãe a pedra lhe aplicara
por reprimir-lhe o sangue que não corra.

Alarve sem razão, bruto sem fé,
sem mais eis que a do gôsto, quando erra,
de Paiaiá tornou-se em abaité.

Não sei onde acabou, ou em que guerra:
só sei que dêste Adão de Massapé
procedem os fidalgos dessa terra.

Gregório de Matos.
(1633-1696)
Poesia Barrôca.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Flor da mocidade.

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FLOR DA MOCIDADE

Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor,
Eu conheço a mais bela flor,
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste,
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val,
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.

Machado de Assis.
Do livro Falenas-(1870).

domingo, 8 de novembro de 2009

Pouco importa

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POUCO IMPORTA

Pouco importa que agora chova,
Ou também que se espalhe o sol.
Pouco importa que a terra se mova,
Ou que se mantenha num ponto só.

Pouco importa se a lua é cheia,
Crescente, nova, ou minguante.
Pouco importa se está muito feia,
Ou se está linda e brilhante.

Pouco importa a hora do dia,
Se tarde, noite, ou madrugada.
O mais importante é a companhia,
Que ora me faz, minha bem amada.

Pouco importa se está muito calor,
Ou mesmo frio, ou gelado lá fora.
O que importa é este lindo amor,
Que aqui dentro curtimos agora.

R.S. Furtado.

sábado, 7 de novembro de 2009

Das cousas do mundo.

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RESPOSTA A INSTABILIDADE DAS COUSAS DO MUNDO

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
depois da Luz, se segue a noite escura,
em tristes sombras morre a formosura,
em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na luz falta a firmeza,
na formosura não se dê constância,
e na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
e tem qualquer dos bens por natureza
a firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos.
(1633-1696)
Poesia Barrôca

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Miserável

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MISERÁVEL

O noivo, como noivo, é repugnante:
materialão, estúpido, chorudo,
arrotando, a propósito de tudo,
o ser comendador e negociante.

Tem a viuvinha, a noiva interessante,
todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
alabastro, marfim, coral, veludo,
azeviche, safira e tutti quanti.

Da misteriosa alcova a porta geme,
o noivo dorme num lençol envolto...
Entra a viuvinha, a noiva... Oh, céu, contém-me!

Ela deita-se... espera... Qual! Revôlto,
o leito estala... Ela suspira... freme...
e o miserável dorme a sono sôlto!...

Artur Azevedo.
(1855-1908)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Nuvens

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NUVENS

Há uma nuvem no céu que é minha. Desce,
quando de cá lhe aceno aborrecido,
ou quando ao que há por lá voltando o ouvido,
viajar pelas estrêlas me apetece.

Como se fôra espírito perdido
no espaço, ela translúcida aparece;
revela-lhe a presença o ar que estremece,
e um rumor leve só por mim sentido.

Chega, arrebata-me. Um momento apenas,
e eis como um pó que se sacode fora,
vão me ficando atrás, caindo, as penas,

penas que se levantam depois, quando
torno à terra, e a agravar-me estão agora
a saudade do céu, que andei viajando.

Alberto de Oliveira.
(1859-1937)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Nas fases da vida.

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NAS FASES DA VIDA

Quando o desabrochar da vida, temos,
É só pelo futuro que esperamos.
Gozamos com devoção o que colhemos,
No presente, e no passado não ligamos.

Chegam tempos, porém, que compreendemos,
Quanto nós, a nós mesmos enganamos;
Se a vida é bela, é quando florescemos,
Não na velhice, que murchando estamos.

E o viver passa a ser abismo escuro,
Então, nós entendemos que o futuro,
Nada mais é que um sonho irrealizado.

E o que nos resta, é confortadamente,
Suavizarmos as mágoas do presente,
Com a cândida lembrança do passado.

R.S. Furtado.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Finados.

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FINADOS

Mãe,
hoje é dia de finados.

Não, não é remorso. Neste momento
leio nos jornais que milhares de criaturas
se atropelam nos cemitérios
levando flores a seus mortos.

Não vou lá, mãe. Não gosto de cemitério,
lá não sei te encontrar,
nem me sinto em paz,
perdido entre multidões...
E sofro de imaginar-te, imóvel, prisioneira
num gavetão de concreto empilhado num muro
branco, de lamentações...

Não, mãe, não me sinto em paz,
nem adianta procurar-te em meio a tanta gente estranha,
misturar tua imagem tão viva quando te penso viva,
com a lembrança da morte que deforma e desfigura
e com lutos e flores convencionais.

Ah, depois que partiste
não gosto de pensar onde te encontras.
Em minha aflição,
hás de ter a certeza de que todo dia
é dia de finados
em meu coração.

J.G. de Araújo Jorge

domingo, 1 de novembro de 2009

Maria Antonieta.

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MARIA ANTONIETA

Dando a este poema alta feição de escudo,
arde-me em lava a ideia! Enfim aquilo
que este ouro der, este ouro que burilo
tem de radiar sob o cinzel agudo.

Rosas, acantos, símbolos... Ah! tudo
que afirme o império da que n’alma asilo!
Floreio o bronze; estro e lavor de estilo
neste ouro deixo e neste bronze estudo.

Febril, finos espíritos invoco...
Repontam signos, esmerilho a rima,
canta e brilha o zodíaco no bloco!

Ei-lo! Brasão da graça, a glória o anima;
e ao dar-lhe título, afinal, coloco
um diadema de pérolas em cima.

B. Lopes.
(1859-1916)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Eva

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EVA

Adão ao vê-la nua e iluminada
pelo celeste olhar onipotente,
sorriu,tremeu, chorou, e humildemente
beijou a fronte à loira desposada.

Eva, entreabrindo a pálpebra adorada,
ao seu divino esposo meigamente
estende os lábios pálidos tremente
como a açucena aos lumes da alvorada.

Rezam depois as folhas da Escritura
que Eva pecou e o Arcanjo vingador
expulsou-os da edênica planura.

Salve, ó sublime filha do Senhor!
Tu que inventaste o êxtase, a ternura,
e os crimes todos do primeiro amor!

Luís Guimarães Júnior.
(1845-1898)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Momentos

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MOMENTOS

Chegaste assim lentamente... De mansinho,
Sem alardes, em silêncio, repleta de emoção.
E conseguiste com malícia e com jeitinho,
Conquistar meu indomado e arisco coração.

Lembro-me ainda como se fosse agora,
Que para troca de carícias, se aguardava o ensejo.
Lembro-me também, da inesquecível hora,
Que fiquei deslumbrado com teu primeiro beijo.

Quantas noites felizes, momentos marcantes,
Momentos de amor, de luxúria, de amantes,
Reveladores momentos, da nossa grande paixão.

Mas, hoje do passado só lembranças existem,
Mais as saudades que massacram e ainda persistem,
E de momentos de tristezas, enchem minha solidão.

R.S. Furtado.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A Açucena

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A AÇUCENA – (Lenda japonesa)

Morava o príncipe Tokiko num castelo montado no cume do monte Azul. Numa tarde, regressando de seu habitual passeio no bosque, deparou-se com uma jovem de rara beleza. O príncipe fitou-a ternamente. Admirou o rosto perfeito da moça. Gostou imenso dos olhos amendoados e finos, como dois frutos deliciosos pendentes dos cabelos cacheados da nipônica linda vestida de branco. Gostou e parou. Largando a sela do fogoso corcel, indagou dos criados da comitiva da jovem, qual o nome da formosa donzela. E, de joelhos, na frente da moça, ferido de amor e de grande emoção, rogou-lhe aceita-lo como esposo.

A resposta da linda Mikio surgiu sorrindo nos lábios vermelhos: “Eu quero!” E acrescentou:

– Contanto que você nunca me fale de flores e nunca me fale de morte!
Tokiko estremeceu. Não podia entender a inesperada e esquisita condição imposta pela noiva. Mas anuiu, sem indagar motivos. E na sua cabeça ficou dançando aquela frase musical: Nem flores nem morte!”Colocou a bela Mikio na garupa de sua montaria e cavalgou para o castelo no alto do monte.

A festa das núpcias alargou a noite até a madrugada. As luzes pintaram mosaicos nas salas alegres. A música tocou. E a multidão dos ricos convivas subia e descia as estradas largas que serpeiam na serra. E o príncipe Tokiko viveu feliz com a princesa Mikio por muitos anos.
Certo dia, uma dama da corte ouviu a conversa dos príncipes. Quem falava era Mikio:

– Querido príncipe, há muito tempo (eu era criança), minha madrasta me pos um terrível encantamento. Eu morreria, jurou ela, depois de casada, se meu marido me deixasse ouvir o nome da morte ou nomes de flores. Mas, agora estou feliz. Você tem sido tão bom para mim. E faltam apenas dois dias para completar o tempo daquela maldição. Depois disso nada me poderá acontecer.

A dama da corte era mulher má e invejosa da felicidade do casal. Por isso alegrou-se pela posse do segredo. Tinha nas mãos o meio de desmanchar o amor do príncipe. Mais do que depressa, chamou o cantor do palácio. Disse para o jogral da corte:

– Amanhã haverá um jantar festivo. É aniversário de casamento do nosso augusto príncipe. Você cantará, ao som dos tambores e flautas, a marcha das Bodas e a ária do Além.

No dia seguinte, Tokiko e Mikio entraram contentes na sala toda enfeitada. Tomaram assento nos seus lugares. E começou o banquete. O primeiro prato servido foi o de ostras frias. E foi servido aos acordes da marcha das Bodas. A alegria tinia em todos. E os convivas tiniam as taças saudando os dois príncipes bondosos. Iam a meio as comemorações, quando o jogral iniciou molemente a ária do Além. Ao chegar naquelas palavras que se cantam assim:

“o rico ou o pobre, o fraco e o forte,
terminam sem dó no frio da morte” –
a princesa Mikio, lívida caiu gritando de dor. E fria e gelada de medo e pavor, com a pele tremendo na face amarela, deitada no chão olhava Tokiko, e encurtava uma perna que, dura, tocava num vaso de rosas, no canto da mesa ali posto pela perversa mulher da corte real.

Em vão Tokiko a mantinha nos braços. Em vão lhe beijava a descorada face. Mikio gemia. Dos olhos só uma lágrima corria. E o corpo inteiro diminuía. Tokiko abraçava-a. E ela encurtava. Nos braços fortes o príncipe a tinha. E ela nem mais gemia. Sorria. Tokiko passava-lhe as mãos no rosto, na testa, nos densos cabelos. E ela fininha, fininha, diminuía. E pouco depois a face branca e gelada foi se apertando. E restou nos braços do príncipe Tokiko uma flor alva, como copo de leite, numa haste longa e fria. É que nas terras longínquas do velho Japão nascia a Açucena.

E a açucena, imaculadamente branca, há de lembrar sempre a todos os homens que também os reis não são felizes, quando se cercam de invejosos de coração perverso.

Autor desconhecido.

sábado, 24 de outubro de 2009

Resposta a um passarinho cantando

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RESPOSTA A UM PASSARINHO CANTANDO

Contente, alegre, ufano Passarinho
que enchendo o bosque todo de harmonia,
me está dizendo a tua melodia,
que é maior tua voz, que o teu biquinho:

como da pequenez desse corpinho
sai tão grande tropel de vozeria?
Como cantas, se és flor de Alexandria?
Como cheiras, se és pássaro de arminho?

Simples cantas, incauto garganteias,
sem ver que estás chamando ao homicida,
que te segue por passos de garganta.

Não cantes mais, que a morte lisonjeias,
esconde a voz, esconderás a vida,
que em ti não se vê mais que a voz que canta.

Gregório de Matos.
(1633-1696).
Poesia Barroca.