segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Canção do mestiço.


CANÇÃO DO MESTIÇO

Mestiço

Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como que se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.

Mestiço!

E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição.

Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
– mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.

Ah!
Mas eu não me danei...
e muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor!...

Mestiço!

Quando amo a branca
sou branco...
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é...

Francisco José Tenreiro


Poeta são-tomense, Francisco José Tenreiro nasceu em 1921, em São Tomé e Príncipe, e faleceu em 1963, numa altura em que se intensificava a Guerra Colonial. Geógrafo por formação, usou a poesia para exprimir a nova África, já não a dos postais ilustrados e dos povos, plantas e animais exóticos, mas a de um novo tempo, marcado pela fusão de culturas nativas.

Veio para Lisboa ainda bastante novo, numa altura em que nos Estados Unidos e na França se ouviam as novas vozes dos intelectuais negros a reclamarem os direitos e a proclamarem a identidade dos povos africanos. Tenreiro enquadra-se nesta corrente. Também ele viveu para exaltar a cultura da sua terra natal, se bem que não renegando certos valores adquiridos com a colonização. Por isso, mais do que o poeta da negritude, assume uma postura de defesa de todas as minorias étnicas, como é visível no poema Negro de Todo o Mundo. A sua poesia exalta o homem africano na sua globalidade, ou seja, a diáspora africana que se propagou por todos os cantos do mundo.

Publicou a sua primeira obra - Ilha do Nome Santo - na colecção coimbrã Novo Cancioneiro, integrando-se na corrente neo-realista que então surgia em Portugal. Poeta da mestiçagem, do cruzamento de culturas e de vozes, escreve, na Canção do Mestiço, «nasci do negro e do branco / e quem olhar para mim / é como se olhasse / para um tabuleiro de xadrez», continuando «E tenho no peito uma alma grande, / uma alma feita de adição». É nessa adição que reside a diferença. Tenreiro não apela a um retorno às origens africanas, mas ao respeito das pessoas de todas as cores, de todas as tradições. A sua voz é verdadeiramente a voz do exílio, por um lado, e do entrecruzamento das culturas e das raças, por outro.

Em 1953, juntamente com o angolano Mário de Andrade, publica, em Lisboa, Poesia Negra de Expressão Portuguesa, uma antologia de textos de novos intelectuais africanos. O próprio nome era já provocação: a africanidade implicava a desestruturação da portugalidade, o que, numa época de ditadura, era no mínimo arriscado fazer. É a busca de uma nova consciência africana.

Em 1962, Tenreiro concluiu o seu segundo livro de poesia, Coração em África, que já não viu publicado, por ter falecido no ano seguinte.

Fonte: http://lusofonia.com.sapo.pt

9 comentários:

ANTOLOGIA POÉTICA disse...

Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece.

Clarice Lispector

Uma semana de amor e poesia..M@ria

ANTOLOGIA POÉTICA disse...

Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece.

Clarice Lispector

Uma semana de amor e poesia..M@ria

Caminhos Poéticos disse...

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos pra sempre.


Albert Einstein

Carinho...Beijos e uma semana de paz!! M@ria

Valéria Sorohan disse...

Oi amigo, gostei de novo. Vc vai sempre muito bem nas escolhas.

BeijooO*

Fatima disse...

Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como que se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.


Olha eu ai!!!!!
Bjs.

Everson Russo disse...

Belissima canção,,,penso que mestiços somos todos nós,,,de corpo e alma...abraços de bela semana pra ti.

Má Salvatori disse...

Olá, Furtado!
Gostei da sua sensibilidade no post, amigo!

Um beijo!

Wanderley Elian Lima disse...

Olá mei amigo
Voltei. Obrigado pela força durante a minha ausência. Gostei do poema.
Abração

Lu Nogfer disse...

"E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição."
ISSO É QUE IMPORTA!

Lindo,lindo!

Beijos,meu amigo

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