terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Viagens.


VIAGENS 

Lembro as viagens que fazia nos paquetes da Blue Star 
quando escalavam o porto da ilha de S. Vicente. 
Eram viagens que não passavam nunca do cais 
mas punham um alvoroço bem grande no meu coração. 
Ora seguia rumo à Europa, 
Hamburgo, Paris, Londres... 
Ora para Cuba, México, Argentina... 

Mas para o Rio de Janeiro é que ia sempre de preferência. 

Era à tarde quando ia passear para o cais 
(todas as partidas deviam ser pela tarde 
porque depressa se apaga dos olhos a terra que ficou atrás). 
O bote estava mesmo encostado à escada para me levar 
e eu começava a descer o primeiro degrau... 

Mas retrocedia logo porque então me lembrava 
de que no dia seguinte tinha que pôr a assinatura 
no livro do ponto da repartição. 

Foi afinal o livro do ponto 
onde todos os dias deixava melancolicamente 
a minha assinatura e a minha renúncia, 
que fez com que todas as minhas viagens 
nunca passassem do cais da ilha de S. Vicente... 

Jorge Barbosa 


O escritor Jorge Vera Cruz Barbosa nasceu em 1902, na Praia (Ilha de Santiago, Cabo Verde), e faleceu em 1971, na Cova da Piedade. 

Figura das mais prestigiadas da moderna poesia cabo-verdiana, o autor é, historicamente, o anunciador, com a publicação do livro Arquipélago (S. Vicente, 1935), da "viagem" para os "problemas da terra" assumida pelo movimento literário Claridade, cujo surgimento, no ano seguinte, acompanhou. De facto, a busca e a caracterização da identidade do povo do seu arquipélago natal são elementos constantes na escrita de Jorge Barbosa. Quer ler mais? 

Fonte: http://www.infopedia.pt/$jorge-barbosa 

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domingo, 29 de janeiro de 2012

Cítara.


CÍTARA 

Firo-te as cordas, cítara dormente, 
Velha cítara poenta, abandonada, 
Que um régio artista fez vibrar, pulsada 
Pela divina mão, antigamente. 

E assim, por um instante despertada, 
Na mesma vibração profunda e ardente 
De outrora freme, cítara dolente, 
Toda a tua alma, trêmula, acordada. 

Nessa maviosa música embebido, 
Escuto as notas, múrmuras, chegando 
Como um coro celeste, ao meu ouvido. 

E eu julgo, então, sentir, no derradeiro, 
No último som que morre, a alma, chorando, 
Desse que as cordas te tangeu primeiro... 

Alceu Wamosy 


Alceu de Freitas Wamosy (Uruguaiana, 14 de fevereiro de 1895 – Santana do Livramento. 13 de setembro de 1923) foi um jornalista e poeta brasileiro. 

Filho de José Afonso Wamosy, de origem húngara e Maria de Freitas, foi um poeta simbolista publicou seu primeiro livro de poesia, Flâmulas, em 1913, enquanto já trabalhava como colaborador no jornal fundado por seu pai, A Cidade, em Alegrete. 

Em 1917 adquiriu o jornal O Republicano, no qual permaneceu trabalhando até seu falecimento. Lutou na Revolução de 1923, onde foi ferido a bala e faleceu, aos vinte e oito anos de idade. 

É patrono da cadeira n.° 40 da Academia Rio-Grandense de Letras. Foi homenageado como patrono da Feira do Livro de Porto Alegre de 1967. 

Fonte: Wikipédia. 

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Resignação.


RESIGNAÇÃO 

Hoje, quando ao te ver passar, 
No peito senti um forte pulsar, 
Acelerado ficou o meu pobre coração. 
A vontade que tive foi de te abraçar, 
Saciar minha sede, de tanto te beijar, 
Deixar extravasar a minha forte paixão. 

Mas, logo percebi que já não mais podia, 
Pois o teu amor, já não mais me pertencia, 
E tudo não passava de uma simples ilusão. 
Que entre nós, tudo era coisa do passado, 
Os nossos bons momentos haviam terminado, 
E que outro já era dono do teu coração. 

Resta-me tão somente, sequenciar a vida, 
Em busca de amor, um pouco de guarida, 
E assim libertar-me desta solidão. 
Confiante, vou seguindo o meu caminho, 
Quem sabe adiante, encontre carinho, 
Que me ajude a viver com resignação. 

R.S. Furtado.

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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Envelhecer.


ENVELHECER

Entra pela velhice com cuidado, 
Pé ante pé, sem provocar rumores 
Que despertem lembranças do passado, 
Sonhos de glória, ilusões de amores. 

Do que tiveres no pomar plantado, 
Apanha os frutos e recolhe as flores 
Mas lavra ainda e planta o teu eirado 
Que outros virão colher quando te fores. 

Não te seja a velhice enfermidade! 
Alimenta no espírito a saúde! 
Luta contra as tibiezas da vontade! 

Que a neve caia! o teu ardor não mude! 
Mantém-te jovem, pouco importa a idade! 
Tem cada idade a sua juventude. 

Bastos Tigre 


Leia mais um belo soneto e a biografia do autor clicando aqui. 

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domingo, 22 de janeiro de 2012

Primeiro frêmito.


PRIMEIRO FRÊMITO 

Passei ao pé de ti, tremulamente ouvindo 
em mim mesma ecoar uma estranha canção, 
o som era confuso e tênue mas foi indo 
e de súbito encheu-me o frio coração... 

Depois tornou-se um hino ardente, e prosseguindo 
dia a dia, a crescer, de força e de emoção, 
todo o meu ser vibrou naquele canto infindo 
como junco dobrado ao sopro do tufão. 

Na floresta vagava esparsa melodia. 
Um frêmito de luz, de vida e de alegria 
fazia rescender o jasmineiro em flor. 

E na terra fremente, e na amplidão profunda 
e em minhalma a tremer, invencível, fecunda, 
palpitava a canção vitoriosa do amor! . . . 

Maria Eugênia Celso 


Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (São João Del Rey, Minas Gerais, 1886 – 1963), usou também o pseudônimo Baby-flirt.  Jornalista, escritora, poeta, teatróloga e sufragista.  Funcionária de carreira do Ministério da Educação e Cultura.  Veio de Minas Gerais para Petrópolis, ainda criança,  onde cursou o Colégio Sion.  

Em 1920 começou sua carreira jornalística no Jornal do Brasil.  Participou ativamente do “Movimento Feminista”, em favor da emancipação política e social da mulher, dedicou-se ao assistencialismo junto às “Damas da Cruz Verde”, aparecendo como uma das lideranças que criaram a maternidade “Pro-Matre” do Rio de Janeiro.  Batalhou pelo direito das mulheres ao voto. Faleceu em 1963. 

Fonte: http://peregrinacultural.wordpress.com/

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