quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Esperanças.


ESPERANÇAS

Já não mais sei até aonde vão as minhas esperanças,
De reacender as chamas do amor, que há muito terminou.
Mergulhado na solidão, vivo somente das lembranças,
Que como recompensa, foi tudo quanto me restou.

Já não mais sei até onde suportarei esta mal vivida vida,
Imposta pelo destino que o SENHOR me assegurou.
Mas, seguirei minha batalha sem descanso, sem guarida,
Correndo atrás da felicidade que o amor me reservou.

Já não mais sei se devo, como também, até quando,
Seguirei nesse intento de reviver tudo o que passou.
Se sou merecedor não sei, de continuar sonhando,
Encontrar o alguém que eu amei e que também me amou.

Já não mais sei onde buscá-la, nem qual o seu paradeiro,
Mesmo assim continuarei, insistirei nas minhas andanças.
Encontrá-la-ei, nem que para isso revire o mundo inteiro,
Pois a fé em DEUS não me fez perder as esperanças.

R.S. Furtado.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Chuva.


CHUVA

Chuva torrencial carregada
de frutos. Chuva exausta
de longos braços
pendentes.

Chuva nos campos da fatalidade
entregando bandeiras.

Música opulenta de rios
que se despenham.

Durante noites e noites.

As criaturas estão à espera
Protegidas pelas paredes
E a palavra — sol
Unge todos os lábios.

Só eu na minha imensidade sem teto,
só eu te suporto o peso,
só eu te sorvo esse gosto,
de morte.

Chuva, plenitude amarga
de derrota.

Sinto que és retorno,
corpo cansado de espírito,
corpo vencido,
corpo
que se entrega
pesadamente
à terra.

Henriqueta Lisboa


A poetisa, ensaísta e tradutora Henriqueta Lisboa nasceu na cidade de Lambari, no Estado de Minas Gerais, no dia 15 de julho de 1901, fruto da união entre o deputado federal João de Almeida Lisboa e Maria Rita Vilhena Lisboa. Ela se torna, posteriormente, a primeira escritora a ser eleita integrante da Academia Mineira de Letras, em 1963.

Jovem estudante, ela recebe o diploma de normalista no Colégio Sion de Campanha, ainda em Minas. Logo depois, em 1924, ela se transfere para terras cariocas. Henriqueta se devota à poesia prematuramente. Em 1929 ela já tem seu primeiro poema, Enternecimento, premiado; ela angaria então o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras.

Sua primeira obra, intitulada Fogo Fátuo, foi publicada quando ela tinha apenas 21 anos, o que confirma seu talento precoce. Ao público infantil ela reserva três livros – O Menino Poeta, de 1943; Lírica, de 1958; e o relançamento, em 1975, do primeiro trabalho devotado às crianças, lançado igualmente em disco pelo Estúdio Eldorado.

Um dos maiores impactos em sua carreira literária é a participação no movimento modernista, em 1945. Nesta época ela foi incentivada a integrar esta escola pelo amigo Mário de Andrade. principalmente através das cartas que ambos trocaram entre 1940 e 1945.

Além dos poemas, Henriqueta produziu várias traduções, ensaios e antologias. Escritora de intensa sensibilidade, ela se devotou de corpo e alma à criação de seus poemas. Ao longo de sua trajetória literária, a poetisa sempre se manteve receptiva a novos estímulos e sugestões de seus contemporâneos, conquistando assim inúmeros admiradores no meio artístico e intelectual, entre eles Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Gabriela Mistral.
Henriqueta foi homenageada, em 1984, com o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras por sua obra como um todo. Paralelamente ao ofício literário, ela atuou também no campo do magistério, como professora de Literatura Hispano-Americana e Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica (Puc Minas) e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e como inspetora escolar.

Esta célebre poetisa morreu em 9 de outubro de 1985, na cidade de Belo Horizonte. Em 2002 houve vários eventos comemorativos em prol de seu centenário de nascimento, quando então foram relançados vários de seus livros, em meio a diversas realizações de natureza cultural.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Henriqueta_Lisboa
           http://www.revista.agulha.nom.br/hlisbo00.html

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Restos de esperança.


...RESTOS DE ESPERANÇA

Por razões profundamente íntimas, ela, por uma grande e desalentadora tristeza, é constantemente atormentada.

É algo latente, talvez, inseparável de sua alma. São grilhões aprisionando todos os seus pensamentos. Sente-se em angustia permanente. É uma aflição exclusivamente pessoal. Que, de certo modo, tem envolvimento com o seu nome: Isabel.

A razão desse nome: uma homenagem a quem assinou a “Lei Áurea”. Pensava sempre; “-escravos libertos... A expressão de liberdade há séculos aprisionada... Até a religião, ao lado dos senhores de escravos, era prazerosamente algoz... Uma infâmia para quem se dizia acreditar em DEUS”. Izabel, enquanto caminha sente os seus pensamentos se soltarem. Mas, cisma em sua autopercepção. Atentamente envolve-se com o que se passa com os escaninhos de sua mente... “- Escravos libertos, mas, só da permanente escravidão...” Quando finca-se no passado de sua raça, vê-se em situações desagradáveis. Dentro de si, esses sofrimentos estão presentes.

A sua tristeza tem um sentimento profundo de uma cruel e constante realidade.

Izabel, ainda menina com dez anos... Bernadete, a sua mãe, dentro do possível, estica seu cabelo. Completando o penteado, põe um laço vermelho. Ela, toda frajola, alegre, saltitante, vai à escola. Pelo caminho e na escola, à sua pessoa, as agressões se repetem. “Negrinha, esse laço vermelho é pra gente não notar que seu cabelo é feito de bosta de rolinha?” As risadas estouram e a humilhação velozmente penetra no âmago do seu ser. As lágrimas, como lâminas de fogo, descem abrindo regos amargos em sua face. Em contrapartida, com afinco dedica-se aos seus estudos. Aos poucos, ano após ano, galga todos os primeiros lugares do colégio. Além de estudiosa procura se dedicar as boas leituras, adquirindo ótimo conhecimento e esmerada educação.

O seu progresso educativo cresce com a admiração dos seus familiares e de outras pessoas. Finalmente chega a época do tão esperado vestibular. Área preferida: pedagogia. Dias de ansiedade, finalmente o resultado: passou em décimo lugar. Mas, não foi como pretendia, pois, aprendera a ser uma perfeccionista. Passado algum tempo, Izabel, intimamente consola-se.

Os anos, puxados por dias e noites, somam-se aos permanentes giros deste planeta. E, Izabel vê-se diante daquela auspiciosa ocasião: o recebimento do diploma. Ali, ao seu lado o noivo, pele escura como a sua, alegra-se quase ao êxtase.

Roberto, o seu nome, é empresário bem sucedido. Nesse dia, anunciaram as núpcias. A espera da data aprazada, os corações dos noivos batem uníssonos, como asa em harmonioso voo, unidas a um só pássaro. Chega o dia mais intensamente desejado aos dois. Tudo nesse dia parece ter brilho diferente. Casaram-se. Passaram-se os meses. Chega a primeira criança, sexo: feminino. Roberto, o pai, fica decepcionado. Vira-se para Izabel e diz: “- da próxima vez vamos caprichar para fazer um filho homem”... Porém, tempos depois, nasce outra menina. Roberto por demais ignorante, irrita-se.

As invisíveis teias do insondável destino trouxeram-lhes novas surpresas. Nasceram só meninas: cinco ao todo. Roberto desapareceu de casa para sempre. Surgem notícias ou boatos, coisas vagas, parecendo sem nexo. “-Roberto vendeu sua empresa e fugiu com a secretária loura... belíssima”.

Izabel, antes que os víveres acabassem, saiu a procura de emprego. Levando o seu currículo, visitou várias escolas. As negativas surgem, às vezes antes que ela justifique ter plena capacidade para a função. Ouve muitas e ferinas agressões verbais. “Não aceitamos negras, como professora, neste colégio. Só se for para serviço de limpeza, cujo lugar já está ocupado”.

Muitos dias se passaram e, inevitavelmente a fome se faz presente nos estômagos de Izabel e de suas cinco filhas. Chega o dia de Natal. Nem alimentos, nem presentes.

Na manhã seguinte, 25 de dezembro, Izabel, entre lágrimas ardentes, vê vindo na rua as suas filhas conduzindo caixas nas quais estão estampadas fotografias de bonecas... Convulsivamente chora, dizendo em desabafo íntimo: “- Para mim, são os restos de esperança”.

Otacílio Negreiros Pimenta
In Memorian

domingo, 31 de outubro de 2010

Fundação da Filosofia moderna.


FUNDAÇÃO DA FILOSOFIA MODERNA

1637René Descartes, filósofo e matemático francês, nascido em La Haye, na Turenne e falecido em Estocolmo (1596-1650), funda a Filosofia moderna, com a obra: Discurso do Método, onde estabelece a necessidade de cada um por em dúvida todas as suas opiniões e indica o verdadeiro método para se chegar à verdade, que se resume nesses quatro preceitos: 1º) não aceitar coisa alguma como verdadeira, sem a conhecer evidentemente como tal; 2º) dividir as dificuldades em tantas partes quantas for possível; 3º) conduzir por ordem os pensamentos, procedendo do simples para o composto; 4º) fazer enumerações tão completas e revisões tão gerais que se não omita a menor coisa (primeira e segunda partes). A terceira parte estabelece as regras provisórias da moral, antes de se chegar a verdade, sendo preciso: 1º) obedecer às leis e aos costumes, conservar a sua religião; 2º) ser firme e corajoso em suas ações; preferir a própria vitória à fortuna. A quarta e a quinta partes resumem a Metafísica e a Física de Descartes, havendo a obra em apreço libertado as inteligências do jugo da Escolástica, e encontrando-se nela, ainda, o princípio fundamental da filosofia cartesiana: “Cogito ergo sum”“Penso logo existo”.

Nota: Este trabalho é o resultado de pesquisas realizadas pelo ilustre professor Elias Barreto e publicado pela Enciclopédia das Grandes Invenções e Descobertas, edição de 1967, volume1, páginas 148/152.

sábado, 30 de outubro de 2010

A serenata.


A SERENATA

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

Adélia Prado


Adélia Luzia Prado de Freitas, escritora brasileira. Sua poesia de estilo original foi publicada em diversas línguas.

"Achei engraçado quando o poeta tropeçou na pedra, / eu tropeço na lei de jugo suave: amai-vos.", diz Adélia Prado no poema "O servo" (1981), citando o poeta Carlos Drummond de Andrade, um dos primeiros a incentivar e tornar conhecida sua pessoalíssima poesia, hoje traduzida e publicada em várias línguas.

Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 1936 em Divinópolis MG, onde cresceu e se educou. Formou-se em filosofia e trabalhou como professora. Em 1971 publicou, com Lázaro Barreto, o livro de poemas A lapinha de Jesus, mas somente cinco anos depois fez sua estreia individual, com Bagagem (1976), que revelou uma artista de extrema originalidade e lirismo. Outro livro de poemas, O coração disparado, de 1978, trouxe a consagração definitiva da escritora e lhe valeu o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, de São Paulo.

Depois de publicar dois livros de prosa -- Solte os cachorros (1979), de contos, e o romance Cacos para um vitral (1980) -- voltou a impressionar seus leitores com Terra de Santa Cruz (1981), reunião de poemas escritos em linguagem coloquial, inovadora e estranhamente imbuída de religiosidade e erotismo. Na década de 1980, a atriz Fernanda Montenegro apresentou em várias cidades brasileiras o espetáculo Dona Doida, dramatização dos poemas desse livro, entre outros, e contribuiu para popularizar a obra da poetisa mineira, que pouco alterou sua rotina de esposa, dona de casa, mãe e avó em função do sucesso de sua literatura. Em 1984 publicou Os componentes da banda, de poemas. A obra de Adélia Prado inclui ainda trabalhos dispersos em jornais, revistas e antologias literárias.

Fonte: ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.