terça-feira, 10 de junho de 2014

A um rico.

 
 

A UM RICO

Das nuvens cor de rosa da opulência
Tentas em vão bater a Desventura,
E, no entretanto, quanta noite escura,
Em vez de auroras, veste-te a existência!

Quantos desses que vivem na indigência
Dos restos do que comes à procura,
Mais do que tu não vivem na Ventura
– Da pobreza na pálida aparência?

Quantos desses que dentro dos farrapos
De uns, em pedaços, miseráveis trapos
Que lhes servem de capa ao corpo nu,

Quantos desses que míseros, sem nome,
Se revolvem no pelágio da fome
Não são mais venturosos do que tu?

Xavier de Carvalho
 

Poeta, Inácio Xavier de Carvalho, nasceu em São Luís no dia 26 de agosto de 1871. Integrou, juntamente com Antonio Lobo e Fran Paxeco, entre outros, a Oficina dos Novos, movimento de renovação literária empreendido por um grupo de escritores maranhenses no início do século XX.

Não há registros confiáveis sobre sua juventude. Com certeza, sabe-se apenas que estudou Direito em Recife, de onde retornou para o Maranhão. Aqui exerceu cargos como o de promotor público, juiz municipal e professor de... Leia mais aqui:

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domingo, 8 de junho de 2014

Rua (TRAIRI).

 
 
Rua (TRAIRI)

Nos cubos desse sal que me encarcera
(Pedras, silêncios, picaretas, luas,
anoitecidos braços na paisagem)
a duna antiga faz-se pavimento.

Meu chão se muda em novos alicerces,
sob as pedreiras rasgam-se meus passos;
e a velha grama (pasto de lirismos)
afoga-se nos sulcos das enxadas,

nas ânsias do caminho vertical.
Ao sono das areias abandonam-
se nesta rua vividos fantasmas.

De seus rios meninos que descalços
apascentavam lamas e enxurradas.
Meu chão de agora: a rua está calçada.

Zila Mamede
 

Zila da Costa Mamede nasceu em setembro de 1928 em Nova Palmeira, pequena cidade localizada no interior da Paraíba. Na infância, costumava passar as férias no sítio do avô, de modo que a ambientação rural teve um papél decisivo para a formação cultural da autora. Ainda criança, mudou-se com a família para Currais Novos (RN), cidade onde o pai iria trabalhar como mecânico de equipamentos agrículas. Com o intúito de alcançar melhores condições de vida, a família Mamede mudou-se para a capital do estado. Depois de se instalar definitivamente em Natal, a agitada ambientação urbana... Leia mais aqui:

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sexta-feira, 6 de junho de 2014

O reino.

 
O REINO

A José Olímpio Vasconcelos

Época de goiabas – no meu quarto
o aroma delas se incrustou no gesso
do cavalo troiano que o lagarto
cavalga; e estas goiabas de começo

de estação sobrenadam o hausto farto
do olfato – o meu cavalo escarva o avesso
do branco onde se funde e em cujo parto
goiabas e lagartos têm o seu preço.

Assim meu quarto esta estação de aroma
envolve – e das goiabas me apercebo
que é tudo hora frutal que em tudo assoma;

e tenho para reino os meses quatro
do aroma de goiaba, e é minha carne
o gesso em que cavalgam tais lagartos

Walmir Ayala
Walmir Ayala nasceu em Porto Alegre (RS) a 4 de janeiro de 1933 e faleceu no Rio de Janeiro (RJ) a 28 de agosto de 1991. Em 1955 publicou seu primeiro livro, Face dispersa (poesia). Em 1956 transferiu residência para o Rio de Janeiro. Dedicou-se a vários gêneros literários: poesia, conto, romance, teatro, literatura infantil, diário íntimo, crônica, crítica (de artes plásticas, literatura e teatro). Dedicou-se também, intensamente, ao jornalismo: de 1962 a 1968, assinou no Jornal do Brasil uma coluna de literatura... Leia mais aqui:

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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Fogo na mata.

 

FOGO NA MATA

O fogo se alastra rugindo qual fera
sedenta de sangue ao baque da presa.
E nessa volúpia de gozo e braveza
o ventre escaldante revolve e descerra!

E abrange a amplitude, e rasga e se aferra,
lambendo raivoso, voraz na destreza!
E a mata se dobra, na rude grandeza,
tombando entre as chamas à face da terra.

Por entre o negrume crepita o braseiro,
e o pobre colono, de braços cruzados,
lamenta impotente a falta do aceiro...

Agora já é tarde. Pois nada mais resta
senão que trabalhos por força dobrados
e a triste saudade da verde floresta...

Virgínia Tamanini


Virgínia Gasparini Tamanini nasceu em 04/02/1897, na fazenda Boa Vista, no Vale do Canaã, município de Santa Teresa, no Estado do Espírito Santo. Seus pais, Epfânio Gasparini e Catarina Tamanini Gasparini, ambos italianos que vieram como imigrantes para o Brasil.

Criada em fazenda, aprendeu as primeiras letras e adquiriu alguns conhecimentos equivalentes ao ensino elemantar da época com professores particulares. Mais tarde, prosseguiu seus estudos no Rio de Janeiro, sob orientação de seu... Leia mais aqui:

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domingo, 1 de junho de 2014

Em busca da felicidade.


EM BUSCA DA FELICIDADE

Já não mais sinto a falta dos teus beijos,
Nem tampouco lembro mais dos teus carinhos.
Tudo mudou, eu já não tenho mais desejos,
De ter-te nos braços, como antes em nossos ninhos.

Já não mais me importo com essa tua ausência,
Tua presença em nada acrescenta atualmente.
Se antes te implorava e rogava por clemência,
Neste momento, tanto faz, para mim é indiferente.

O tempo passa, as coisas mudam, tudo acontece,
Tudo que começa, com certeza, um dia terá fim.
Se os sentimentos mudam nos outros, é o que parece,
Por que então, haveria de ser diferente em mim?

Procures alguém que te ame e te faça muito feliz,
E que aceite essa tua forma de amar, que não aceitei.
Pois esse não foi o grande amor que eu sempre quis,
Parti em busca da felicidade, sou feliz, a encontrei.

R.S. Furtado.

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