sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Tralalá.

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TRALALÁ

Hoje bem cedo, eu fui lá pra esquina,
Bem camuflado, fiquei em surdina,
Esperando só para te ver passar.
Rezei para o meu santo traquina,
Pedir para os ventos da matina,
Fazer a tua saia levantar.

Por não ser lerdo, abobalhado,
Meu santinho, desconfiado,
Começou logo a trabalhar.
Fez que forte soprasse o vento,
Para atender ao meu intento,
E a tua calcinha mostrar.

Fiquei nervoso, atordoado,
Senti o corpo incendiado,
Sem poder me controlar.
Corri pra casa apressado,
Cheguei suado, inflamado,
Me tranquei, fui tralalá...

R.S. Furtado.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Pela noite.

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PELA NOITE

Digam do amor com que eu a acarinhava,
todos os astros, todas as estrelas...
Digam quanto as fitava e como, ao vê-las,
ela, a estrela mais lúcida lembrava.

Dos céus em fora, pele noite, e pelas
nuvens que eu tristemente contemplava,
digam como daquele afeto escrava
minh'alma ansiava por comprendê-las.

Tudo contem... Do meu estranho afeto
falem, falem da minha dor contida
por largos meses e por largos anos,

e esse que for o astro mais indiscreto
conte como me viu a alma ferida,
por desenganos sobre desenganos.

Pedro Rabelo.

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Nasceu Pedro Carlos da Silva Rabelo no Rio de Janeiro, em 19 de outubro de 1868, e faleceu na mesma cidade, em 27 de dezembro de 1905. Trabalhou a principio no comercio, foi depois amanuense do Patrimônio da Independência, redator de debates na Câmara e diretor de secção do Conselho Municipal. Como jornalista, foi companheiro de Olavo Bilac em A Cigarra (1895) e colaborou na imprensa da época, freqüentando assiduamente as colunas da Gazeta de Noticias. Foi fundador da Academia Brasileira de Letras (Cadeira nº 30). Seu livro mais conhecido, Opera-Lyrica, surgiu um ano depois de Cruz de Sousa ter dado a lume os Broquéis, situando-se pois no limiar do neo parnasianismo.

Fonte: “Poesia Parnasiana” Antologia – Edições Melhoramentos – 1967.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A fonte de Jacó.

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A FONTE DE JACÓ

Na velha Samaria era Sicar situada;
ora, em Sicar, Jacó, filho de Isac, um dia,
velho já, tarda a mão, à sua gente amada
uma fonte rasgou d’água límpida e fria.

O Mestre, certa vez, a essa borda abençoada,
(no tempo de Jesus a fonte inda existia)
à hora sexta quedou-se, a fronte angustiada
de dor, a vez passar gente de Samaria.

Uma samaritana, acaso, à fonte veio;
e ao passar por Jesus, com seu cântaro cheio,
o alto busto ondulou numa graça lasciva...

– Água! Pediu Jesus, mata-me a sede e a mágoa!
Do cântaro, que tens, dá-me uma pouca d’água
que, em troca, eu te darei da fonte d’água viva.

Francisca Júlia.

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Francisca Júlia da Silva nasceu em Xiririca, atual Eldorado, São Paulo, em 31 de agosto de 1871. Acompanhou sempre a mãe, que era professora pública, e assim residiu em São Paulo, em Cabriúva e Lajeado, onde se casou com Filadelfo Edmundo Munster, funcionário da E. F. Central do Brasil, em 1909. Passando a morar em São Paulo, recolheu-se à vida do lar, e seu pensamento, que desde certo tempo vinha adquirindo tons místicos e esotéricos, fez-se cada vez mais moralizante. Com a doença do marido, começou a afirmar que jamais poria o véu de viúva; no dia do falecimento de Filadelfo, em 31 de outubro de 1920, adormeceu para não mais acordar, apesar de todos os esforços médicos, uma vez que tomara, por engano ou deliberadamente, excessiva dose de narcótico. Não passa de lenda sem fundamento a versão de que morreu sobre o caixão do marido, ao despedir-se do corpo. Faleceu no dia do sepultamento de Filadelfo, antes do saimento do cortejo (1º de novembro de 1920), e foi sepultada no dia de finados, no Cemitério do Araçá. Sobre seu túmulo há uma estátua de Brecheret, mandada erigir pelo Governo do Estado por iniciativa de Freitas Vale.

Fonte: “Poesia Parnasiana” Antologia – Edições Melhoramentos – 1967.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Maldita ilusão.

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MALDITA ILUSÃO

Eu queria poder voltar a ter o teu amor de verdade,
Reviver toda àquela nossa louca paixão.
Acabar de uma vez com essa angústia, essa saudade,
Que machuca, maltrata, dilacera o meu coração.

Sinto falta das noites que juntinhos passamos,
Sentindo a brisa do mar, sob os raios do luar.
Como dois sedentos; alucinados nos amamos,
Como animais, sem pudor, para a sede saciar.

Se por acaso voltares pra mim, que felicidade,
Darás um fim na minha amarga e triste solidão.
Mas, não sei se por pirraça, ou mesmo por maldade,
Continuas firme, insistes em dizer que não.

Até quando não sei, permanecerá essa ansiedade,
Nem tampouco, essa minha espera em vão.
Quem sabe, um dia, eu desperte para a realidade,
E elimine definitivamente essa maldita ilusão.

R.S. Furtado.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Folha solta.

http://sol.sapo.pt/photos/arturd/images/57071/original.aspx

FOLHA SOLTA

Não me culpeis a mim de amar-vos tanto,
mas a vós mesma e à vossa formosura,
pois se vos aborrece, me tortura
ver-me cativo assim do vosso encanto.

Enfadai-vos; parece-vos que, enquanto
meu amor se lastima, vos censura;
mas sendo vós comigo áspera e dura,
que eu por mim brade aos céus não causa espanto.

Se me quereis diverso do que agora
eu sou, mudai; mudai vós mesma, pois
ido o rigor que em vosso peito mora,

a mudança será para nós dois:
e então podereis ver, minha senhora,
que eu sou quem sou por serdes vós quem sois.

Vicente de Carvalho.

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Vicente Augusto de Carvalho nasceu em Santos, em 05 de abril de 1866; estudou na cidade praiana e em São Paulo, e formou-se em Direito em 1886. Republicano, foi eleito deputado provincial em 1887 e a Constituinte do Estado em 1891 e exerceu o posto de Secretário do Interior. Em 1892 voltou à advocacia, e mais tarde foi juiz em São Paulo (1908) e desembargador (1914). Pertenceu a Academia Brasileira de Letras. Faleceu em Santos, em 22 de abril de 1924.