A FONTE DE JACÓ
Na velha Samaria era Sicar situada;
ora, em Sicar, Jacó, filho de Isac, um dia,
velho já, tarda a mão, à sua gente amada
uma fonte rasgou d’água límpida e fria.
O Mestre, certa vez, a essa borda abençoada,
(no tempo de Jesus a fonte inda existia)
à hora sexta quedou-se, a fronte angustiada
de dor, a vez passar gente de Samaria.
Uma samaritana, acaso, à fonte veio;
e ao passar por Jesus, com seu cântaro cheio,
o alto busto ondulou numa graça lasciva...
– Água! Pediu Jesus, mata-me a sede e a mágoa!
Do cântaro, que tens, dá-me uma pouca d’água
que, em troca, eu te darei da fonte d’água viva.
Francisca Júlia.

Francisca Júlia da Silva nasceu em Xiririca, atual Eldorado, São Paulo, em 31 de agosto de 1871. Acompanhou sempre a mãe, que era professora pública, e assim residiu em São Paulo, em Cabriúva e Lajeado, onde se casou com Filadelfo Edmundo Munster, funcionário da E. F. Central do Brasil, em 1909. Passando a morar em São Paulo, recolheu-se à vida do lar, e seu pensamento, que desde certo tempo vinha adquirindo tons místicos e esotéricos, fez-se cada vez mais moralizante. Com a doença do marido, começou a afirmar que jamais poria o véu de viúva; no dia do falecimento de Filadelfo, em 31 de outubro de 1920, adormeceu para não mais acordar, apesar de todos os esforços médicos, uma vez que tomara, por engano ou deliberadamente, excessiva dose de narcótico. Não passa de lenda sem fundamento a versão de que morreu sobre o caixão do marido, ao despedir-se do corpo. Faleceu no dia do sepultamento de Filadelfo, antes do saimento do cortejo (1º de novembro de 1920), e foi sepultada no dia de finados, no Cemitério do Araçá. Sobre seu túmulo há uma estátua de Brecheret, mandada erigir pelo Governo do Estado por iniciativa de Freitas Vale.
Fonte: “Poesia Parnasiana” Antologia – Edições Melhoramentos – 1967.