sábado, 14 de novembro de 2009

Luz entre sombras.

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LUZ ENTRE SOMBRAS

É noite medonha e escura,
Muda como o pensamento,
Uma só no firmamento
Trêmula estrela fulgura.

Fala aos ecos da espessura
A chorosa harpa do vento,
E num canto sonolento
Entre as árvores murmura.

Noite que assombra a memória,
Noite que os medos convida
Erma, triste, merencória.

No entanto... minh’alma olvida
Dor que se transforma em glória,
Morte que se rompe em vida.

Machado de Assis.
Do livro Falenas – (1870).

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O bêbado.

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O BÊBADO

A vista turva, o crânio atordoado,
Nada o entristece nem tampouco o encanta.
Tomba, tropeça, cai e se levanta,
Vai cair mais distante, do outro lado.

Julga que a bebedeira. O desgraçado,
Os seus desgostos trágicos espantam.
Esbraveja, sorri, às vezes canta,
Talvez algum lampejo do passado.

Vive, e, não sabe ao certo se tem alma,
Fogem-lhe os dias, e ele jamais sente,
Ruir-lhe do vício o cansaço tão voraz.

Se acaso, o sono, o cérebro lhe acalma,
Ele após despertar, pensa somente,
Em ir para a taverna beber mais.

R.S. Furtado.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Aos caramurus da Bahia.

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AOS CARAMURUS DA BAHIA

Um calção de pindoba, a meia zorra,
camisa de urucu, mantéu de arara,
em lugar de cotó, arco e taquara,
penacho de guarás, em vez de gorra.

Furado o beiço, sem temer que morra
o pai que lho envazou cuma titara,
porém a mãe a pedra lhe aplicara
por reprimir-lhe o sangue que não corra.

Alarve sem razão, bruto sem fé,
sem mais eis que a do gôsto, quando erra,
de Paiaiá tornou-se em abaité.

Não sei onde acabou, ou em que guerra:
só sei que dêste Adão de Massapé
procedem os fidalgos dessa terra.

Gregório de Matos.
(1633-1696)
Poesia Barrôca.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Flor da mocidade.

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FLOR DA MOCIDADE

Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor,
Eu conheço a mais bela flor,
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste,
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val,
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.

Machado de Assis.
Do livro Falenas-(1870).

domingo, 8 de novembro de 2009

Pouco importa.

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POUCO IMPORTA

Pouco importa que agora chova,
Ou também que se espalhe o sol.
Pouco importa que a terra se mova,
Ou que se mantenha num ponto só.

Pouco importa se a lua é cheia,
Crescente, nova, ou minguante.
Pouco importa se está muito feia,
Ou se está linda e brilhante.

Pouco importa a hora do dia,
Se tarde, noite, ou madrugada.
O mais importante é a companhia,
Que ora me faz, minha bem amada.

Pouco importa se está muito calor,
Ou mesmo frio, ou gelado lá fora.
O que importa é este lindo amor,
Que aqui dentro curtimos agora.

R.S. Furtado.