sábado, 7 de novembro de 2009

Das cousas do mundo.

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RESPOSTA A INSTABILIDADE DAS COUSAS DO MUNDO

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
depois da Luz, se segue a noite escura,
em tristes sombras morre a formosura,
em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na luz falta a firmeza,
na formosura não se dê constância,
e na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
e tem qualquer dos bens por natureza
a firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos.
(1633-1696)
Poesia Barrôca

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Miserável.

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MISERÁVEL

O noivo, como noivo, é repugnante:
materialão, estúpido, chorudo,
arrotando, a propósito de tudo,
o ser comendador e negociante.

Tem a viuvinha, a noiva interessante,
todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
alabastro, marfim, coral, veludo,
azeviche, safira e tutti quanti.

Da misteriosa alcova a porta geme,
o noivo dorme num lençol envolto...
Entra a viuvinha, a noiva... Oh, céu, contém-me!

Ela deita-se... espera... Qual! Revôlto,
o leito estala... Ela suspira... freme...
e o miserável dorme a sono sôlto!...

Artur Azevedo.
(1855-1908)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

As fases da vida.

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NAS FASES DA VIDA

Quando o desabrochar da vida, temos,
É só pelo futuro que esperamos.
Gozamos com devoção o que colhemos,
No presente, e no passado não ligamos.

Chegam tempos, porém, que compreendemos,
Quanto nós, a nós mesmos enganamos;
Se a vida é bela, é quando florescemos,
Não na velhice, que murchando estamos.

E o viver passa a ser abismo escuro,
Então, nós entendemos que o futuro,
Nada mais é que um sonho irrealizado.

E o que nos resta, é confortadamente,
Suavizarmos as mágoas do presente,
Com a cândida lembrança do passado.

R.S. Furtado.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Finados.

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FINADOS

Mãe,
hoje é dia de finados.

Não, não é remorso. Neste momento
leio nos jornais que milhares de criaturas
se atropelam nos cemitérios
levando flores a seus mortos.

Não vou lá, mãe. Não gosto de cemitério,
lá não sei te encontrar,
nem me sinto em paz,
perdido entre multidões...
E sofro de imaginar-te, imóvel, prisioneira
num gavetão de concreto empilhado num muro
branco, de lamentações...

Não, mãe, não me sinto em paz,
nem adianta procurar-te em meio a tanta gente estranha,
misturar tua imagem tão viva quando te penso viva,
com a lembrança da morte que deforma e desfigura
e com lutos e flores convencionais.

Ah, depois que partiste
não gosto de pensar onde te encontras.
Em minha aflição,
hás de ter a certeza de que todo dia
é dia de finados
em meu coração.

J.G. de Araújo Jorge

domingo, 1 de novembro de 2009

Maria Antonieta.

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MARIA ANTONIETA

Dando a este poema alta feição de escudo,
arde-me em lava a ideia! Enfim aquilo
que este ouro der, este ouro que burilo
tem de radiar sob o cinzel agudo.

Rosas, acantos, símbolos... Ah! tudo
que afirme o império da que n’alma asilo!
Floreio o bronze; estro e lavor de estilo
neste ouro deixo e neste bronze estudo.

Febril, finos espíritos invoco...
Repontam signos, esmerilho a rima,
canta e brilha o zodíaco no bloco!

Ei-lo! Brasão da graça, a glória o anima;
e ao dar-lhe título, afinal, coloco
um diadema de pérolas em cima.

B. Lopes.
(1859-1916)