VIA-LÁCTEA
Em mim também, que descuidado vistes,
encantado e aumentando o próprio encanto,
tereis notado que outras cousas canto
muito diversas das que outrora ouvistes.
Mas amastes, sem dúvida... Portanto,
meditai nas tristezas que sentistes:
que eu, por mim, não conheço cousas tristes,
que mais aflijam, que torturem tanto.
Quem ama inventa as penas em que vive:
e, em lugar de acalmar as penas, antes
busca novo pesar com que as avive.
Pois sabei que é por isso que assim ando:
que é das loucas somente e dos amantes
na maior alegria andar chorando.
Olavo Bilac.

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac nasceu no Rio de janeiro, em 16 de dezembro de 1865. Estudou medicina até o 4º ano, em sua cidade natal, e foi ouvinte do 1º ano de Direito, em São Paulo. Não se formou, preferindo exercer o jornalismo; além de poeta (inclusive satírico), granjeou renome como cronista, a ponto de ser dito por Emílio de Meneses “rei na prosa e imperador no verso”. Alguns de seus livros didáticos, como Através do Brasil, ainda hoje são lidos, apesar do envelhecimento inevitável dos trabalhos desse gênero. Bilac foi também orador e conferencista famoso, capaz de empolgar o país com campanha em prol do serviço militar obrigatório: achava ele que o país tinha muitos analfabetos, e que a caserna deveria ser uma escola que acabasse com essa falta de primeiras letras. Essa campanha foi desenvolvida já nos seus últimos tempos.
Em razão da sua posição na revolta de 1893, teve de ficar foragido em Minas Gerais; voltando ao Rio de Janeiro, foi preso e ficou por cinco meses na Fortaleza de Laje. Em sua carreira burocrática, ocupou os cargos de oficial da Secretaria do Interior do estado do Rio e inspetor escolar do Distrito Federal. Foi professor do pedagogium e fundador da Academia Brasileira de Letras. Faleceu no Rio de Janeiro, em 28 de dezembro de 1918.
Fonte: “Poesia Parnasiana” Antologia – Edições Melhoramentos – 1967.
