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domingo, 7 de novembro de 2010

Com barro amassei meu sangue.


COM BARRO AMASSEI MEU SANGUE

Com barro amassei meu sangue
pus-lhe dentro o coração
depois deitei-lhe uma estrela
e um ponto de exclamação.

Mas esta coisa anda mesmo?
Lá dentro havia o pulsar
de rio de águas fervendo
em jeito de respirar.

Deitei-lhe trigo e o trigal
ali mesmo rebentou:
 Depois juntei-lhe uma pedra:
que montanha se formou!

Mas esta Coisa anda mesmo?
Lá dentro nascia pão
e fogo que rebentava
da cratera de um vulcão.

Depois soprei-lhe com força:
Vinha de lá um rumor
como vendaval crescendo.
Coisa maluca, Senhor?

Pois esta Coisa anda mesmo?
Mas isto tudo é de gente?
O que pode acontecer
quando um Poema se sente?

Cândido da Velha
Poeta, contista e jornalista angolano, Cândido Manuel de Oliveira da Velha nasceu a 18 de Julho de 1933, em Ílhavo, no distrito de Aveiro, onde passou a infância e parte da adolescência.
Tendo terminado o ensino secundário, foi viver algum tempo para Lisboa e é já aqui que decide ir para Angola, em 1957, onde viveu até ao momento da Independência, tendo desempenhado funções de funcionário público no Instituto de Trabalho de Angola. Na verdade, regressa a Portugal em Outubro de 1975, onde exerceu a sua actividade profissional no Baixo Alentejo, entre 1976 e 1986.
A sua actividade literária começou por ser veiculada através da imprensa regionalista, ainda em Portugal, tendo sido um dos organizadores dos cadernos "Atitude".
Foi membro da Sociedade Cultural de Angola e foi galardoado, em 1957, com o 1.º Prémio de Poesia da Associação dos Naturais de Angola (ANANGOLA) pelo seu livro, à data ainda manuscrito, Poemas do Apocalipse. Em 1959, ganhou o Prémio "Mota Veiga" com o livro As Idades da Pedra.
Entre 1958 e 1975, foi colaborador literário de diversos jornais, nomeadamente "Cultura II"; "ABC"; "Jornal de Angola"; " A Província de Angola"; "Notícias de Angola"; "Brasília do Sul" e também, embora por curto período de tempo, do "Suplemento Literário" de Minas Gerais (Brasil).
Colaborador da revista "Cultura II", continuadora da revista "Mensagem"extinta pela Polícia Política do Governo Colonial, Cândido da Velha assume uma escrita poética notoriamente "engagée" que, constituindo-se como um processo de catarse, evoca o passado de escravidão e denuncia o presente colonial de miséria. Produzindo os seus textos em tempo de repressão e de luta contra o colonialismo, o autor projecta um "eu lírico" militante que, denunciando a opressão fascista e colonialista, se enforma como um grito colectivo de um povo que começa a tomar verdadeira consciência da sua exploração e se predispõe a mudá-la.
Poeta conceituado, os seus textos têm sido seleccionados para animar espaços de poesia promovidos por, entre outros, António Cardoso Pinto.
A sua obra figura em diversas antologias poéticas, a saber: "Kazuela I", 1973; "Breve África" 1975; "No Reino de Caliban. Antologia Panorâmica da Poesia Africana de Expressão Portuguesa, II", 1976; "Antologia da Poesia Pré-Angolana",1976 e "Antologia do Mar na Poesia Africana de Língua Portuguesa do Século XX", 2000.
Escreveu, entre outros, os seguintes títulos: Quero-te Intangível, África (1960-Poesia); Equador (1961-Contos); As Idades da Pedra (1969 - Poesia); Corporália (1972 - Poesia); Signo de Caranguejo (1972 - Poesia); Memória Breve de Uma Cidade (1988 - Poesia); Navio Dentro do Mapa (1994 - Poesia) e Lugares do Vento Suão (1998 - Poesia).
Como referenciar este artigo:
Cândido da Velha. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-11-07].
Disponível na www: .