BUSCANDO A CRISTO
A vós correndo vou, braços sagrados,
nessa Cruz sacrossanta descobertos
que, para receber-me, estais abertos,
e, por não castigar-me, estais cravados.
A vós, divinos olhos, eclipsados
de tanto sangue e lágrimas cobertos,
pois para perdoar-me, estais despertos,
e. por não condenar-me, estais fechados.
A vós, pregados pés, por não deixar-me,
a vós sangue vertido, para ungir-me,
a vós, cabeça baixa, por chamar-me.
A vós, lado patente, quero unir-me,
a vós, cravos preciosos, quero atar-me,
a vós, ficar unido, atado e firme.
Gregório de Matos
Gregório de Matos Guerra nasceu na Bahia, filho de Gregório de Matos, pessoa abastada, e de Maria Guerra, em 20 de dezembro de 1633. Cursou o Colégio de Artes em sua cidade, e ingressou na Universidade de Coimbra em 1652, fazendo sua leitura de bacharel em 1662. Perdendo em 1674 as funções de procurador da Câmara da Bahia, voltou para o Brasil e foi nomeado, em 1679, desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia. Satírico e desregrado que era, não poupando as autoridades eclesiásticas nem civis foi demitido e perseguido, até ser desterrado para Angola. De volta, não podendo viver na Bahia, fixou-se em Pernambuco, no Recife, onde morreu em 1696.
Pedro Calmon acentua que Gregório introduziu um valor novo na poética de cunho popular, que foi “a nota política avisada de nativismo. Acorre à defesa dos naturais do Brasil. É o advogado arrogante dos “mozambos”, dos que no Brasil nasceram, dos conterrâneos. Revolta-se, numa cólera estrondosa, extensiva à cidade corrupta, ao povo... Engendra a poesia licenciosa, da boêmia estudantil, marcando-a com o humorismo escabroso, da vadiagem alegre.”
Fonte: "Poesia Barrôca! Antologia - Edições Melhoramentos - 1967.