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domingo, 20 de março de 2011

Cabeças-de-Frade.


CABEÇAS-DE-FRADE

...sócios incomparáveis neste habitat,
que as próprias orquídeas evitam,
os cabeças-de-frade,
deselegantes e monstruosos
melocactos de forma elipsoidal,
acanalada, de gomos espinescentes,
convergindo-lhes no vértice superior
formado por uma flor única,
intensamente rubra.
Aparecem, de modo inexplicável,
sobre a pedra nua,
dando, realmente, no tamanho,
na conformação, no
modo por que se espalham,
a imagem singular de
cabeças decepadas e sanguinolentas,
jogadas por ali, a esmo,
numa desordem trágica.

Augusto de Campos


Augusto Luís Browne de Campos (São Paulo SP 1931). Poeta, tradutor, crítico literário e musical, e ensaísta brasileiro. Forma-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco. Publica seus primeiros poemas em 1949, na Revista Brasileira de Poesia, editada pelo Clube de Poesia, entidade ligada ao grupo literário da Geração de 45. Publica seu livro de estreia, O Rei Menos o Reino, em 1951. No ano seguinte, afasta-se do Clube de Poesia, por discordar de sua orientação estética, participa da criação do grupo Noigandres (palavra extraída de uma canção do trovador provençal Arnaut Daniel, que significa "o olor que afasta o tédio") e edita uma revista com mesmo nome, ao lado de Haroldo de Campos (1929-2003) e Décio Pignatari (1927), com quem também organiza o movimento da Poesia Concreta. Em 1956, participa da Primeira Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, e dois anos depois a revista Noigandres n. 4 publica o Plano-piloto da Poesia Concreta, que apresenta os princípios teóricos do movimento. Em 1959, participa de uma exposição internacional de poesia concreta realizada em Stuttgart, Alemanha, e no ano seguinte de uma exposição realizada em Tóquio, Japão. Em 1963, apresenta-se na Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, e no ano seguinte expõe a série de poemas-cartazes Popcretos. Na década de 1960, com colaborações de poetas como Cassiano Ricardo (1895-1974), Sebastião Uchoa Leite (1935-2003) e Paulo Leminski (1944-1989), edita a revista literária Invenção. Em 1974, é publicada a Caixa Preta, conjunto de poemas visuais e poemas-objeto manipuláveis, desenvolvidos em parceria com o artista plástico Júlio Plaza. Como tradutor, Augusto de Campos divulga em português autores como Ezra Pound, Mallarmé, Joyce, Cummings e Maiakovski. No campo da crítica literária e do ensaio publica as antologias Re-Visão (1964 e 1971) com as obras de Sousândrade (1833-1902) e Pedro Kilkerry (1885-1917), respectivamente, e Pagu: Vida-Obra (1982). Estudioso da música erudita de vanguarda, publica artigos sobre compositores como Edgar Varèse, Anton Webern e John Cage no jornal Folha de S.Paulo, reunidos posteriormente no livro Música de Invenção (1998). Augusto de Campos também se interessa por movimentos de renovação da música popular brasileira, como a Bossa Nova e a Tropicália. Publica o livro O Balanço da Bossa (1974) e tem parcerias com os compositores Caetano Veloso, Arnaldo Antunes e Arrigo Barnabé. Em 1994, grava o CD Poesia é Risco, com Cid Campos.

Fonte: http://www.itaucultural.org.br/