sexta-feira, 2 de maio de 2014

Os rios, os peixes.

OS RIOS, OS PEIXES

Aqui o rio onde brinquei menino.
Ontem as águas claras
mostravam peixes transando no fundo entre pedras.
Agora, recobertas de uma espuma corrupta,
exibem a morte: peixes boiando
como os corpos insepultos num campo de guerra.
A cobiça, o desamor, o progresso com os defensivos e desfolhantes,
carregam para o leito os resíduos dos enxurros.

Destas águas não beberei mais,
para, sobrevivo, contemplar ainda
o inocente cavalo que ali jaz entre urubus,
dentes à mostra e olhos terríveis
escancarados aos céus.

Não os grandes rios, o São Francisco, o Paraná, o Araguaia,
mas a cantiga dos ribeirões pequenos de águas azuladas
que refrescam os vegetais em torno
e acordam pássaros nas manhãs alegres!

Estes não haverá mais.

João Accioli

Nasceu na cidade de Piracanjuba, no dia 1º de outubro de 1912, filho de Francisco Accioli Martins Soares e de Teófila Gonçalves Martins Soares, e faleceu em São Paulo, no dia 1º de maio de 1990.

Iniciou seus estudos na sua cidade natal e o curso secundário no Diocesano de Uberaba, Minas Gerais, e foi diretor na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Leia mais aqui: 

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4 comentários:

✿ chica disse...

Triste transformação que podemos ver em nossos rios da infância! Pena! Lindo poema! abração,tudo de bom,chica

Dorli disse...

Oi amigo,
Não deveríamos viver tanto para ver o descaso com a natureza, as mananciais estão secando, a falta de chuva, o desmatamento, tudo isso e muito mais engloba um mundo sórdido em que estamos vivendo.
Tenho pena das crianças que por ora estão nascendo que ganharão de presente um mundo em pedaços e, cola nenhuma será capaz de refazê-lo ao seu original e, irão sofrer muito os destemperos que foram provocados pela insensatez dos seus próprios antepassados.
Beijos no coração
Lua Singular

ReltiH disse...

UN POEMA QUE EVOCA REPUDIO Y MELANCOLÍA.
UN ABRAZO

Clau disse...

Boa tarde Furtado :)
Os rios, (grandes ou pequenos), a cada dia ficam mais poluídos.
Provavelmente João Accioli escreveu este poema há algumas décadas, mas nada melhorou, só piorou...
Beijos e boa semana!

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