
POR QUÊ?
Ris, se digo que és boa; e se te digo
Que és má, tomas um ar de indiferença...
Fazes um gesto vago de descrença,
Quando afirmo serei teu muito amigo...
Se de tuas promessas te desligo,
Amuas-te; e é fatal a desavença,
Ao te falar da gratidão imensa
E do respeito meu para contigo...
Se as mãos te beijo, cedes; mas, fremente,
Se a procuro, essa boca me resiste!...
Enfado-me, gargalha loucamente!
Não sei, porém, se alta razão te assiste,
Se a atitude é de sábio ou de demente,
Quando, ao jurar que te amo, ficas triste!
Goulart de Andrade.
Nasceu José Maria Goulart de Andrade em Maceió, Alagoas, em 06 de abril de 1881. Estudou lá mesmo, e, ao mudar-se para o Rio de Janeiro, aos 16 anos, desejou ingressar na Marinha: fez o curso prévio na Escola Naval, mas diplomou-se em engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro (1906). Engenheiro da prefeitura carioca, foi também redator da Câmara de Deputados, professor e diretor do Ginásio Pan-Americano, membro da Academia Brasileira de Letras. Faleceu no Rio de Janeiro, em 19 de dezembro de 1936. Desde cedo, vinculou-se ao grupo de poetas boêmios, entre os quais Guimarães Passos (seu conterrâneo), Olavo Bilac, Emílio de Menezes, Martins Fontes. Como poeta, esmerou-se na especialidade das poesias difíceis, de forma fixa o vilancete, o rondel, a balada e sobretudo o canto, real, uma das mais complexas formas poéticas. Tornou-se também jornalista, sendo um dos redatores de O Imparcial nos primeiros tempos, onde teve o convívio de João Ribeiro, Humberto de Campos e Augusto de Lima. Publicou inúmeros trabalhos na Revista da Academia Brasileira de Letras.
Fontes: “Poesias Parnasianas – Antologia” – Edições Melhoramentos – 1967 e Academia Brasileira de Letras.