AS ÁGUAS
A chuva regressou pela boca da noite
Da sua grande caminhada
Qual virgem prostituída
Lançou-se desesperada
Nos braços famintos
Das árvores ressequidas!
(Nos braços famintos das árvores
Que eram os braços famintos dos homens...)
Derramou-se sobre as chagas da terra
E pingou das frestas
Do chapéu roto dos desalmados casebres das ilhas
E escorreu do dorso descarnado dos montes!
Desceu pela noite a serenar
A louca, a vagabunda, a pérfida estrela do céu
Até que ao olhar brando e calmo da manhã
Num aceno farto de promessas
Ressurgiu a terra sarada
Ressumando a fartura e a vida!
Nos braços das árvores...
Nos braços dos homens...
Onésimo da Silveira
Onésimo da Silevira nasceu na cidade do Mindelo em 10/02/1935. É um político e escritor de Cabo Verde. Viveu na China, tendo-se mais tarde radicado na Suécia, onde representou o PAIGC. Licenciado em Ciências Políticas, desempenhou até há pouco tempo um alto cargo nas Nações Unidas, tendo representado essa organização na Somália, em Angola e em Moçambique. Vive actualmente em São Vicente.
Fonte: http://www.wook.pt/

