
O BEIJO DA MORTA
Cresce a invernosa noite, um frio intenso
morde-me as carnes: – lívido, gelado,
no leito me ergo... e escuto o desolado
uivo do Inverno, atroz, convulso, imenso...
Tento dormir. Em vão! Escuto e penso.
Penso na eterna Ausente... Ah! se a meu lado
ela estivesse! um beijo perfumado!
um só! me fora ardente e ideal incenso...
Abre-se então de leve a minha porta:
é Ela! Entrou. Na palidez da morta
uma aurora de beijos irradia:
caminha... chega e diz-me num segredo:
“Une teu rosto ao meu, não tenhas medo:
venho aquecer-te: – a noite está tão fria!”
Luís Guimarães Júnior.

Nasceu Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior no Rio de Janeiro, em 17 de fevereiro de 1845. Estudou Direito em São Paulo e no Recife, por onde se diplomou em 1869. Exerceu o jornalismo e ingressou na diplomacia em 1872, indo servir no Chile como adido de 1ª classe à Legação do Brasil; na carreira, esteve na Inglaterra (1873), Santa Sé (1876), Portugal (1881), Venezuela, onde se aposentou em 1894, como Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário. Fundador da Academia Brasileira; faleceu em Lisboa, em 20 de maio de 1898.
Fonte: “Poesia Parnasiana” Antologia – Edições Melhoramentos – 1967.