O PASSEIO

Ele esticou o braço direito, o qual lhe pareceu pesado demais. Girou-o em espaços invisíveis, encontrando só o vazio absoluto. A sua mão, por instantes, continuou tateando no escuro, mas percebeu haver tocado em algo macio e frio. Realmente o que desejava: um travesseiro. Rapidamente o colocou no lugar mais apropriado: a sua dolorida cabeça... Havia, dentro de si, uma premente necessidade: se libertar dos seus atrozes pensamentos... Eles, imbativelmente, o perseguem dias e noites. Uma marcação constante, sem cessar. As suas lembranças, inexoravelmente, movem-se dentro de si – escravizando-o permanentemente. Mas, são apenas os retalhos de recordações, às vezes, sem nexos, que não estabelecem os vínculos da realidade que precisa conhecer. Entre lençóis brancos e macios sobre a cama, tenta lentamente se virar. Mas, não consegue. Sua imaginação vagueia, tirando-o Dalí, levando-o a acontecimentos idos, muito distantes. Precisa encontrar, não no passado longínquo, mas de tempo recentíssimo, a nítida lembrança do que lhe aconteceu – antes de ser levado para ali. É urgente saber, a fim de esclarecer a razão de todo o seu tormento mental. A sua irritante preocupação transluz-se por todo o seu semblante. Nele, vê-se uma incontestável lástima. Em seu atribulado esforço mental – extenua-se. A sua cabeça dói, palpita incessantemente. O seu corpo queima em febre, parecendo possuir crepitantes chamas interiores.
De novo, lentamente, tenta mexer-se na cama, mas, não consegue. Quer dormir, sossegar... impossível. Em natural e ínfima disposição, ajeita-se um pouco. Pretende apagar da mente os seus confusos pensamentos. Quanto mais se empenha em retirá-los, ardilosamente eles se avivam em sua atormentada consciência. Há, em si, latente, uma pergunta agressiva, inquietadora... “- Por que estou aqui?” os seus pensamentos caminham rápidos, em torvelinhos, complicando-se, sem nada esclarecer. As horas, entretanto, parecem paradas, intermináveis. Em seu quarto de hospital, a escuridão prolonga-se indefinidamente. São momentos de angustiantes vazios, por demais tristes enfadonhos. Às vezes, surgem devaneios em embalos trágicos, enlouquecedores. É a manifestação de sua consciência preocupada. Mesmo desejando o sono, o estado de repouso não acontece. “- Por que essas imagens sem a completa nitidez?” Intimamente, assusta-se, pois, as mesmas parecem esconder algo terrível... Felizmente, chega a sua tela mental uma bela manhã de sol. Praia e mar... Ele e a sua família harmoniosamente reunida. O filho, Roberto, cautelosamente se aproxima: “- Pai! Mãe! Vamos tomar banho de mar?” A resposta veio imediata: “- Agora não”. O garoto levantou a cabeça louro-bronzeada, mostrando em sua fisionomia uma astuta expressão do seu forte olhar. Dentro de si caudalosas energias, querendo expressar toda a raiva da sua majestosa impaciência.
Posicionou-se, firmando bem os pés, e chutou um montículo de areia. Com o forte impacto, essa pequena elevação de decompôs em finíssimas partículas, movendo-se pelo vento em várias direções. Mas, o menino, logo em seguida voltou para perto dos seus pais. Um incontrolável impulso o fez falar, novamente: “- Mamãe, quem é esse cara que está bebendo com papai?”... “- É João, amigo do seu pai”. Em poucos instantes, Leandro, o pai, fala em tom imperativo: “- Gilda, leve o Roberto para o banho de mar... vê se ele não me enche”.
Naquele dominical encontro de amigos, copos cheios com bebidas alcoólicas, seguidamente, se encheram e se esvaziaram várias vezes. A conversa entre os dois tinham frutos suculentos de maledicências, mexendo com a reputação das pessoas que progrediram honestamente. A manhã e à tarde se passaram rapidamente, trazendo os aspectos do início da noite. A esposa Gilda e o filho Roberto se aproximam pra fazer mais um apelo: “- Leandro! É noite... vamos para a nossa casa?”. Na cidade, as luzes clareiam os caminhos dos homens, os quais, de há muito substituíram o seu andar pelo passo rápido das máquinas. Mais uma solicitação para, finalmente, Leandro concordar em atender. Bêbado, em cambaleios alcoólicos, segura a chave e se dirige ao carro.
Leandro, embriagado, dirigindo o seu carro julga que segue em completa segurança. Seus pensamentos estão em ritmos lentos, mas, a velocidade do seu carro aumenta cada vez mais... De repente, acontece o impacto. Violento. Terrível... Ouvem-se fortíssimos ruídos, sons metálicos e de vidros entrechocando-se com agressivas impetuosidades. Gritos lancinantes são ouvidos na noite. Angústias se afirmando em sentimentos de dores e desesperos. Frações de segundos rapidamente transformados em sofrida eternidade. Desmaios... O sangue fluindo, querendo esvaziar os corpos feridos. Vive-se o silêncio que parece paralisar tudo... Dias depois, Leandro retorna a sua consciência exterior. Logo, sente o ar enjoativo de quarto de hospital. Nesse ar fétido, misturados a curativos e remédios, tenta se mexer, desejando se levantar de corpo inteiro. Não consegue. Com muito esforço, lentamente, consegue suspender só o braço direito. Alcança o interruptor e... A luz se faz. Leandro, em profundo desespero, solta um grito de terror.
“- Onde estão as minhas pernas?... - O que fizeram com o meu braço esquerdo? –Eu quero a minha esposa e o meu filho, agora!!!” Como resposta só o constrangedor silêncio, feito com os fios da angústia e da completa desolação. Chorou compulsivamente, sem se aperceber do giro do tempo, a ausência de alguns dias e noites.
Pelos corredores do hospital, uma voz em alto brado gritava com a entonação do completo desespero e da nítida expressão de loucura. “- Por que estou aqui?... Eu, também, morri com a minha esposa e com o meu filho... Prendam o assassino, pelo amor de Deus!...”
Otacílio Negreiros Pimenta
In Memorian

Ele esticou o braço direito, o qual lhe pareceu pesado demais. Girou-o em espaços invisíveis, encontrando só o vazio absoluto. A sua mão, por instantes, continuou tateando no escuro, mas percebeu haver tocado em algo macio e frio. Realmente o que desejava: um travesseiro. Rapidamente o colocou no lugar mais apropriado: a sua dolorida cabeça... Havia, dentro de si, uma premente necessidade: se libertar dos seus atrozes pensamentos... Eles, imbativelmente, o perseguem dias e noites. Uma marcação constante, sem cessar. As suas lembranças, inexoravelmente, movem-se dentro de si – escravizando-o permanentemente. Mas, são apenas os retalhos de recordações, às vezes, sem nexos, que não estabelecem os vínculos da realidade que precisa conhecer. Entre lençóis brancos e macios sobre a cama, tenta lentamente se virar. Mas, não consegue. Sua imaginação vagueia, tirando-o Dalí, levando-o a acontecimentos idos, muito distantes. Precisa encontrar, não no passado longínquo, mas de tempo recentíssimo, a nítida lembrança do que lhe aconteceu – antes de ser levado para ali. É urgente saber, a fim de esclarecer a razão de todo o seu tormento mental. A sua irritante preocupação transluz-se por todo o seu semblante. Nele, vê-se uma incontestável lástima. Em seu atribulado esforço mental – extenua-se. A sua cabeça dói, palpita incessantemente. O seu corpo queima em febre, parecendo possuir crepitantes chamas interiores.
De novo, lentamente, tenta mexer-se na cama, mas, não consegue. Quer dormir, sossegar... impossível. Em natural e ínfima disposição, ajeita-se um pouco. Pretende apagar da mente os seus confusos pensamentos. Quanto mais se empenha em retirá-los, ardilosamente eles se avivam em sua atormentada consciência. Há, em si, latente, uma pergunta agressiva, inquietadora... “- Por que estou aqui?” os seus pensamentos caminham rápidos, em torvelinhos, complicando-se, sem nada esclarecer. As horas, entretanto, parecem paradas, intermináveis. Em seu quarto de hospital, a escuridão prolonga-se indefinidamente. São momentos de angustiantes vazios, por demais tristes enfadonhos. Às vezes, surgem devaneios em embalos trágicos, enlouquecedores. É a manifestação de sua consciência preocupada. Mesmo desejando o sono, o estado de repouso não acontece. “- Por que essas imagens sem a completa nitidez?” Intimamente, assusta-se, pois, as mesmas parecem esconder algo terrível... Felizmente, chega a sua tela mental uma bela manhã de sol. Praia e mar... Ele e a sua família harmoniosamente reunida. O filho, Roberto, cautelosamente se aproxima: “- Pai! Mãe! Vamos tomar banho de mar?” A resposta veio imediata: “- Agora não”. O garoto levantou a cabeça louro-bronzeada, mostrando em sua fisionomia uma astuta expressão do seu forte olhar. Dentro de si caudalosas energias, querendo expressar toda a raiva da sua majestosa impaciência.
Posicionou-se, firmando bem os pés, e chutou um montículo de areia. Com o forte impacto, essa pequena elevação de decompôs em finíssimas partículas, movendo-se pelo vento em várias direções. Mas, o menino, logo em seguida voltou para perto dos seus pais. Um incontrolável impulso o fez falar, novamente: “- Mamãe, quem é esse cara que está bebendo com papai?”... “- É João, amigo do seu pai”. Em poucos instantes, Leandro, o pai, fala em tom imperativo: “- Gilda, leve o Roberto para o banho de mar... vê se ele não me enche”.
Naquele dominical encontro de amigos, copos cheios com bebidas alcoólicas, seguidamente, se encheram e se esvaziaram várias vezes. A conversa entre os dois tinham frutos suculentos de maledicências, mexendo com a reputação das pessoas que progrediram honestamente. A manhã e à tarde se passaram rapidamente, trazendo os aspectos do início da noite. A esposa Gilda e o filho Roberto se aproximam pra fazer mais um apelo: “- Leandro! É noite... vamos para a nossa casa?”. Na cidade, as luzes clareiam os caminhos dos homens, os quais, de há muito substituíram o seu andar pelo passo rápido das máquinas. Mais uma solicitação para, finalmente, Leandro concordar em atender. Bêbado, em cambaleios alcoólicos, segura a chave e se dirige ao carro.
Leandro, embriagado, dirigindo o seu carro julga que segue em completa segurança. Seus pensamentos estão em ritmos lentos, mas, a velocidade do seu carro aumenta cada vez mais... De repente, acontece o impacto. Violento. Terrível... Ouvem-se fortíssimos ruídos, sons metálicos e de vidros entrechocando-se com agressivas impetuosidades. Gritos lancinantes são ouvidos na noite. Angústias se afirmando em sentimentos de dores e desesperos. Frações de segundos rapidamente transformados em sofrida eternidade. Desmaios... O sangue fluindo, querendo esvaziar os corpos feridos. Vive-se o silêncio que parece paralisar tudo... Dias depois, Leandro retorna a sua consciência exterior. Logo, sente o ar enjoativo de quarto de hospital. Nesse ar fétido, misturados a curativos e remédios, tenta se mexer, desejando se levantar de corpo inteiro. Não consegue. Com muito esforço, lentamente, consegue suspender só o braço direito. Alcança o interruptor e... A luz se faz. Leandro, em profundo desespero, solta um grito de terror.
“- Onde estão as minhas pernas?... - O que fizeram com o meu braço esquerdo? –Eu quero a minha esposa e o meu filho, agora!!!” Como resposta só o constrangedor silêncio, feito com os fios da angústia e da completa desolação. Chorou compulsivamente, sem se aperceber do giro do tempo, a ausência de alguns dias e noites.
Pelos corredores do hospital, uma voz em alto brado gritava com a entonação do completo desespero e da nítida expressão de loucura. “- Por que estou aqui?... Eu, também, morri com a minha esposa e com o meu filho... Prendam o assassino, pelo amor de Deus!...”
Otacílio Negreiros Pimenta
In Memorian