
BOM JESUS, AMADOR DAS ALMAS PURAS
Bom Jesus, amador das almas puras,
Bom Jesus, amador das almas mansas,
De ti vêm as serenas esperanças,
De ti vêm as angélicas doçuras.
Em toda parte vejo que procuras
O pecador ingrato e não descansas,
Para lhe dar as bem-aventuranças
Que os espíritos gozam nas alturas.
A mim, pois, que de mágoa desatino
E, noite e dia, em lágrimas me banho,
Vem abrandar o meu cruel destino.
E, terminado este degredo estranho,
Tem compaixão de mim, Pastor divino!
Que não falte uma ovelha ao teu rebanho!
José Albano.

Nascido em Fortaleza, no Ceará, em 12 de abril de 1882, José d’Abreu Albano, neto dos Barões de Aratanha, estudou no Seminário daquela diocese, depois em colégios religiosos da Inglaterra, da Áustria e da França. De regresso, fez os preparatórios no Ceará e em 1902 tentou estudar Direito no Rio de Janeiro. Professor de latim no Ceará, em 1904, no ano seguinte trabalha no gabinete do Barão do Rio Branco, no Itamarati, e em 1908 no Consulado do Brasil em Londres. Em 1912 deixa o emprego e põe-se a viajar pela Europa. Em 1914, combalido das faculdades mentais, volta ao Ceará e em 1917 ao Rio de Janeiro; no ano seguinte fixa-se em Paris. Faleceu em 11 de julho de 1923 num hospital de Montauban, na França.
José Albano era pessoa singular, até na aparência. Conforme o descreve Luís Edmundo, “quando aqui chegou vindo de Viena, onde estudava desde menino, o poeta José de Abreu Albano” trazia “a mais vasta cabeleira já descida em terras brasílicas e uma barba em novelo que lhe dava o bíblico ar de um Yokanan que usasse croisé de sarja, polainas e monóculo”. Chegado ao grupo de João Ribeiro, que fazia ponto na Livraria Garnier, ainda segundo Luís Edmundo “falava como escreviam Diogo do Couto e Fernão Lopes de Catanheda. (...) Detesta o automóvel, a democracia e os relógios Pateck Philippe.
A poesia de José Albano é complexa com sua língua de tons envelhecidos, mas os Dez Sonetos, por ele próprio escolhidos, são de grande fluência, doçura e religiosidade bastantes para os terem celebrizado. Ultimamente José Albano vem sendo reestudado pela crítica; Manuel Bandeira reeditou-o em 1948.
Fonte: “Poesia Parnasiana – Antologia” – Edições Melhoramentos – 1967.