segunda-feira, 13 de abril de 2009

Espelho, meu...

ESPELHO, MEU...

Posiciona-se diante do espelho. Posta-se, ereto, como se fosse falar a algumas pessoas. Imposta-se com falsa dignidade. Diante disso, a sua consciência, de imediato, firmemente o demove. Percebe rugas profundas margeando-lhe o rosto. Vê inúmeros cabelos brancos convivendo em sua lustrosa cabeleira. Perplexo, sente-se desfigurado. Além disso, sofrendo uma preocupação latente, os seus olhos brilham intensamente. É a manifestação de sua alma em profunda aflição. Sente-se, às vezes, como se estivesse sonhando. Mas, apropriadamente, tudo lhe parece um horroroso pesadelo. Intimamente, vive uma forte crise de identidade moral. A sua mente convulsa, aciona-se em passagens existenciais, envolvendo a sua vida com motivos psicológicos alucinantes. Adentra-se profundamente nos escaninhos de suas vivências mentais mais significativas. Uma voz dentro de si, distante do tempo presente, adquire forma clara e compreensiva. “- Lucas, meu filho, venha aqui...” Era a suave voz de sua mãe. “- Você sabe, porque se chama Lucas.” Ela, novamente, firme e meiga. “- Lucas foi um dos grandes evangélicos”.

Sem querer, de repente, desviava-se das imagens de sua infância. A sua mente, mais uma vez, é agressivamente invadida pelas lembranças mais recentes. São recordações profundamente atormentadoras. Que, no meio social, desfigura a sua honrosa personalidade. Vive uma situação em que, para si, o tempo parece haver parado, deixando-o diante de um escuro e imenso abismo. Aturdido, aflito, sente-se como se algo misterioso o tivesse encarcerado, inexoravelmente. Autovisualiza-se em outros momentos, como uma bolha sobre imensa pressão, prestes a estourar. No emaranhado de diversos pensamentos, a sua cabeça lateja e dói intensamente. Não sabe há quanto tempo está acordado... Pergunta-se: “- qual a minha última refeição?” Essa interrogação íntima não o afasta dos seus cruciantes e atormentadores pensamentos. O silêncio exterior lhe parece infindável. No seu íntimo, entretanto, as vibrações de angustias são devastadoras e as interrogações intermitentes. Constantes como o tempo. “Como me justificar... e reorganizar a minha vida?...”

No torvelinho de sua mente, as indagações acicatam-lhe a alma. As respostas, às vezes, são sofridas certezas. A voz sai-lhe sem controle: “-Estou sofrendo um inferno em vida”. De tanto autoatormentar-se, sente-se demasiadamente cansado. A tristeza enseja outras terríveis preocupações, deixando-o exangue e em completa desolação. O seu corpo já não parece mover-se por sua vontade, mas, como se fosse um verdadeiro autômato. Por rápidos momentos, às vezes, a sua mente sente-se em relativa quietude, revivendo agradáveis lembranças. Aquela voz, mais uma vez, levanta-se dentro de si. “- Lucas tome banho e se arrume. Já está na hora de sua escola dominical...” Na Igreja, à entrada, está o pastor. Personalidade com posicionamentos sempre radicais. “- Só na Bíblia está a verdade... e a verdade nos libertará.” E acrescenta: “- Lembrem-se, todos vocês, só na nossa igreja está à salvação.”

Passaram-se dias e noites, mas, dentro de si, permanentemente revoluteiam presságios ameaçadores. As ausências demoradas de pensamentos, sem formas definidas, são, às vezes, mais assustadoras do que as terríveis imagens já sofridas.

No labirinto infinito do oceano cósmico, as horas terrenas já estão tecidas, surgindo, aqui, em direção ao irretornável. Mais uma noite se realiza em sua trajetória de muitas sombras e pouquíssimos raios de luz. A escuridão começa a esmaecer, abrindo espaço ao dia em sua habitual profusão de luz. Para Lucas, devido a sua consciente perturbação, noite e dia não tem mais significado. Novamente, uma daquelas vozes retorna: “- Hoje, a nossa comunidade evangélica está de parabéns, graças a Deus. Como primeiro pastor da nossa Igreja, assume: Lucas – o fiel servidor de nosso Senhor Jesus Cristo”. O tempo, célere, foi, no calendário humano, ficando sempre para trás. Um certo dia, um jornal de comunidade religiosa contrária, estampou em sua primeira página.
“- Pastor Lucas adquiriu fortuna roubando os óbolos de sua Igreja...“ Essa notícia correu rápido como rastilho de pólvora. Os já desconfiados com aquela ostentação de riqueza, comentavam. “- O pastor Lucas, com mulher e filhos, fugiu no seu luxuoso carro importado”.


Otacílo Negreiros Pimenta
In Memorian

6 comentários:

il parlatore disse...

Grazie per essere ptra i miei sostenitori...Ringrazio a nome delle popolazioni colpite dal sisma...Ciao a presto!!

Do nascimento, Silva. disse...

ooi,
obrigada pela passada lá!

Eu acredito no pensamento e no crer! Sempre consigo o que quer, Amém! ;)

gostei muito do texto e do blog também.

bjs

Amaral disse...

Obrigado pela visita!
Estou lendo os seus posts e revejo-me em muitas posições que aqui estão expostas...
A pouco e pouco, vamos conhecendo gente nova nesta blogosfera...

Livinha disse...

Que texto maravilhoso, retratando a briga interior dos conflitos existenciais, quando a consciência fala..
Ainda uma voz de mãe ao soar como lembrete, nos faz temer a cobrança do que somos...

Texto que nos leva a muita reflexão...

Abraços

Renato Baptista disse...

Rosemildo...

Agradeço muto a sua visita lá no meu Blog, o Academia da Poesia e o comentário deixado.
è uma honra tê-lo por lá. Vou voltar com mais tempo para me interar dos seus escritos com mais calma.
Fica um convite para que você visite o Blog que fala sobre estudos sobre Espiritismo Kardecista Cristão que mantenho... o endereço é: http://estejamosempaz.blogspot.com

Um grande abraço
Renato Baptista

ellen disse...

Furtado!
Fiquei sem palavras com o seu elogio tão amável na minha participação de hoje sobre a Natureza... obrigada :)

sobre este tema, que achei muito interessante e porque também despertou interesse o titulo, visot eu ter uma postagem no meu Blog do dia 3 Janeiro/09, chamado Imitação. Como um espelho pode ser replecto de tanto significado né?

Bjinho para si

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