terça-feira, 19 de junho de 2012

Mutação.


MUTAÇÃO 

Batel sem norte, o espírito naufraga 
neste medonho pélago de ciúme, 
que os suplícios do amor todos resume, 
e as vítimas do amor todas alaga: 

quando entram n'alma as sombras do azedume, 
quando nasce no peito hedionda chaga; 
sofre-se... curte-se uma dor que esmaga, 
e não se exala ao menos um queixume... 

Mas, de repente – delicioso instante! – 
uma doce cartinha, inesperada, 
torna feliz um coração amante! 

Dor... azedume... isso não vale nada! 
Todos os males se dissipam diante 
das garatujas da mulher amada! 

Artur Azevedo 

Leia mais um belo soneto e a biografia do autor aqui: 

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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Paixão ardente.


PAIXÃO ARDENTE

La fora, a noite tão linda e fria,
A brisa forte pela janela entrava.
Ca dentro, teu corpo no leito se estendia,
Juntinho e sedento eu te contemplava.
Com fome de amor, meu corpo explodia,
Ao amanhecer, a gente se amava.

O tempo passou tão rapidamente,
É chegada a hora da separação.
Me abraças, me beijas, tão loucamente,
Acendendo as chamas de uma louca paixão.
Com os corpos trêmulos, então novamente,
Amamos, amamos, rolando no chão.

Nosso amor tão sincero e sublime,
Com nenhum outro pode se comparar.
Tão lindo e brilhante como uma vitrine,
É um amor que, igual, ninguém vai encontrar.
O senhor nos criou, nos uniu, e previne,
Que nada no mundo, vai nos separar.

R.S. Furtado

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Amigos!
Hoje estarei viajando para Recife, onde passarei alguns dias e, possivelmente, estarei fora do ar por um breve período. Espero contar com a costumeira compreensão de todos.
Beijos no coração de todos.


Rosemido Sales Furtado.

terça-feira, 12 de junho de 2012

A Rendeira.


A RENDEIRA 

Na teia da manhã que se desvela, 
a rendeira compõe seu labirinto, 
movendo sem saber e por instinto 
a rede dos instantes numa tela. 
Ponto a ponto, paciente, tenta ela 
traçar no branco linho mais distinto 
a trama de um desenho tão sucinto 
como a jornada humana se revela. 
Em frente, o mar desfia a eternidade 
noutra tela de espuma e esquecimento 
enquanto, entrelaçado, o pensamento 
costura sobre o sonho a realidade. 
Em que perdida tela mais extrema 
foi tecida a rendeira e este poema? 

Adriano Espínola 


Adriano Espínola é poeta, ensaísta e professor da UFRJ. Parte de sua obra é dedicada à Fortaleza, sua cidade natal. "Fala, favela" (1981), "Táxi" (1986) e "Beira-Sol" (1997), sintetizam a experiência sensorial com a cidade. Seu livro de poesias "Beira-Sol" (1997) recebeu o Prêmio de Poesia – 2006 da FBN para Obra em Curso e "Praia provisória" (2006) rendeu-lhe o Prêmio ABL de Poesia, em 2007. Como ensaísta lançou "As artes de enganar: um estudo das máscaras poéticas e biográficas de Gregório de Mattos" (2000), sua tese de doutorado. Seu livro-poema "Táxi" foi traduzido para o inglês por Charles Perrone e lançado na coleção Literatura Mundial em Tradução (Nova York/Londres: Garland, 1993). Como escritor convidado, participou, dentre outros eventos, do Festival Internacional de Poesia do Mundo Latino, em Bucareste (1997), do 18º. Salão do Livro, em Paris (1998), e do Congresso de Escritores Brasil-Portugal, no Porto (2000). É membro do PEN Club do Brasil desde 2006. Foi professor-leitor de Cultura e Literatura Brasileiras na Université Stendhal Grenoble III, em Grenoble-França, de 1989 a 1991, e professor convidado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, de Teoria Literária, de 2004 a 2007. Atualmente é professor associado de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza. 

Fonte: Academia Brasileira de Letras. 

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domingo, 10 de junho de 2012

Desncontro.


DESENCONTRO 

Quantas vezes me viste sem te eu ver, 
E quantas eu te vi que me não viste... 
E só agora, ao ver que me fugiste, 
Eu vejo o que perdi, em te perder. 

Estranha condição do estranho ser 
Que alegre vive nesta vida triste: 
Que só saibamos em que o bem consiste, 
Quando o bem só consiste no morrer. 

Quão feliz eu seria, se, na hora 
Em que te vi, te visse como agora, 
Ideal, nos meus sonhos ideais!... 

Se o que eu sinto por ti sentir pudera, 
Então, sorrindo, eu te diria: Espera, 
E hoje, chorando, não te espero mais. 

Silva Ramos 


Leia mais um belo soneto e a biografia do autor aqui:

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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Para um negro.


PARA UM NEGRO 

para um negro 
a cor da pele 
é uma sombra 
muitas vezes mais forte 
que um soco. 

para um negro 
a cor da pele 
é uma faca 
que atinge 
muito mais em cheio 
o coração. 

Adão Ventura 


Adão Ventura Ferreira Reis nasceu em Santo Antônio do Itambé, Distrito do Serro, MG, em 1946. Advogado, formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, autor de livros de poesia, sendo os primeiros: Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul,(Belo Horizonte: Edições Oficina, 1970), As musculaturas do Arco do Triunfo (Belo Horizonte: Editora Comunicação, 1976). Já participou de antologias poéticas em vários países. Teve um de seus poemas incluído na antologia Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, organizada por Italo Moriconi ( Editora Objetiva - SP). 

Fonte: http://www.antoniomiranda.com.br

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