OLHOS QUE APALPAM
Tímida, com seu ar
de tapuia do mato,
quando ao meu lado
está, fica suspensa e queda;
muda, porém, o olhar
balbucia e segreda
o que a boca não diz
de receio e recato.
E esse, a cujo fulgor
não há nada que exceda,
untuoso olhar, por bem
sentir o meu contato,
parece às vezes ter
sutileza de tato,
finuras digitais de
duas mãos de seda.
Fala-me o seu olhar com
franqueza e descuido
tecendo em torno a mim
suas tramas e enredos;
e ele envolve-me tanto
em seu mágico fluido,
diz-me com tal calor os
seus grandes segredos,
que quase sinto à flor
da pele e quase cuido
que igual à mão, o
seu olhar tem cinco dedos.
Júlio César da Silva
Júlio
César da Silva nasceu em Xiririca, atual Eldorado, no Estado de São
Paulo, em 23 de dezembro de 1872, e estudou Direito na Faculdade de
São Paulo, pela qual se formou em 1895. Teve mocidade aventurosa,
trabalhou em circo, andou por Buenos Aires e Montevidéu, e fixou-se
afinal como funcionário da Prefeitura de São Paulo. Faleceu na
capital do Estado em 15 de julho de 1936.
Fonte: Poesia Parnasiana - Antologia. Edições Melhoramentos - 1967.
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