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segunda-feira, 19 de março de 2012

Neste dia meu amor.


NESTE DIA MEU AMOR 

Neste dia meu amor 
os meus dedos são o candelabro que te ilumina 
o único existente. 

E o homem 
sua esfera perdida em mãos alheias 
é o objecto de malabarismo 
o insecto 
voltejando cega a luz que lhe irradiam 
o límpido cristal corrompido 
o defunto. 

E este patíbulo onde o próprio carrasco se enforcará 
eu o digo 
será erguido como símbolo de todos os homens. 

Aqui a hora vai sendo longínqua meu amor e solene. 
O caminho é grande o tempo tão pouco 
tenhamos muita esperança e muito ódio 
e vítreas flores a ornar o teu cabelo 
porque serei o homem para as transportar 
e tu a última mulher que as aceitará. 

E enquanto assim for 
erguer-se-á a nuvem de múltiplas estrelas 
a nebulosa 
que dizem estar a milhões de anos-luz 
mas não acreditemos bem o sabes 
porque a verdade a temos em nossas próprias mãos 
oculta para a contemplarmos agora. 

Carlos Eurico da Costa 


Carlos Eurico da Costa nasceu em Viana do Castelo no ano de 1928. Foi, com Mário Cesariny, António Maria Lisboa e Cruzeiro Seixas, fundador do Grupo Surrealista português, tendo participado, como artista plástico, na Primeira Exposição dos Surrealistas com um conjunto de desenhos intitulado Grafoautografia. Dentre as actividades a que se dedicou, contam-se a poesia, a tradução, o jornalismo, a crítica cinematográfica, a edição, as relações públicas e a publicidade. Tem colaboração dispersa por diversas revistas, nomeadamente Árvore (1951-1953), Seara Nova, A Serpente (1951) e Colóquio/Letras. Foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores, tendo, durante o seu mandato, recriado os prémios daquela agremiação. Faleceu em Lisboa em 1998. 

Fonte: http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/


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