CASA PATERNA
Da velha casa em que a manhã da vida
passei – conservo uma lembrança exata:
antes de eu vir ao mundo foi erguida
perto da serra, quase ao pé da mata.
Dá para o sul a frente enegrecida;
ao lado, para um poente de escarlata,
janelas donde, na estação florida,
se aspira os cheiros dos jasmins de prata.
Perto, o bambual em cujo seio amigo
cantam graúnas, e o pomar antigo
com meiros, tiés e gurundis em bando.
O ribeirão, o cafezal, a horta...
Ah! que saudade o coração me corta
do lar querido que deixei chorando!
Gustavo Teixeira.
Gustavo Teixeira nasceu em 04 de março de 1881 em São Pedro de Piracicaba, onde sempre viveu, com exclusão de breve período em que tentou o jornalismo em São Paulo. Conhece-se, desse tempo, uma fotografia sua, em que figura ao lado de Júlio Prestes, Batista Cepelos, Francisco Lagreca e René Thiollier (no livro deste, Episódios de Minha Vida, São Paulo, Anhembi, 1956, entre país. 16 e 17). Exerceu as funções de secretário da Câmara Municipal de seu município. Eleito para a Academia Paulista de Letras na vaga de Paulo Setúbal, faleceu pouco depois, em 22 de setembro de 1937.
Cassiano Ricardo, que estudou a poesia do bardo de São Pedro, acentua o seu derramamento em “poemas excessivos, longos demais, como ‘O Sonho de Marina’, ‘Última Página’, ‘Leda’, ‘Versos Brancos’ e muitos outros”, e também a sua falta de surpresa, quer no ritmo, quer na rima; aponta o poeta de Martim Série que onde há “violetas” se seguirão “borboletas”, ou vice-versa (embora não deixem de ocorrer varias parelhas de “violetas” e “Julietas”, acrescentamos nós). Isso também se havia dado entre os simbolistas: depois de “astros” viria “rastros”, e o próprio Gustavo Teixeira não escaparia a combinação, no terceto final de “A Águia”, onde o homem anda a gemer “de rastros”, ao passo que a águia tem por diadema os “astros”.
Gustavo Teixeira não atingiu com “Ementário” nem “Poemas Líricos” o primeiro plano, mesmo em nosso neoparnasianismo; mas de qualquer modo representa bem, nessa primeira fase, o poeta do interior que sonha com ideias inatingíveis de beleza, sendo mesmo estranho, como assinala Cassiano Ricardo, “que tenha sido tão grego nas condições ‘municipais’ em que escreveu o seu Ementário”. A publicação de suas poesias inéditas, principalmente as do "Último Evangelho", viria mostrar que no fim da vida o poeta alcançara uma posição de equilíbrio, que se pode notar em vários sonetos daquele livro: sua arte é, então, bem mais simples e mais precisa, bastando para conceder-lhe, tranquilamente, um lugar ao sol entre os neoparnasianos.
Fonte:
“Poesia Parnasiana – Antologia” – Edições Melhoramentos – 1967.