Mostrando postagens com marcador Artur de Azevedo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artur de Azevedo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de junho de 2012

Mutação.


MUTAÇÃO 

Batel sem norte, o espírito naufraga 
neste medonho pélago de ciúme, 
que os suplícios do amor todos resume, 
e as vítimas do amor todas alaga: 

quando entram n'alma as sombras do azedume, 
quando nasce no peito hedionda chaga; 
sofre-se... curte-se uma dor que esmaga, 
e não se exala ao menos um queixume... 

Mas, de repente – delicioso instante! – 
uma doce cartinha, inesperada, 
torna feliz um coração amante! 

Dor... azedume... isso não vale nada! 
Todos os males se dissipam diante 
das garatujas da mulher amada! 

Artur Azevedo 

Leia mais um belo soneto e a biografia do autor aqui: 

Visite também: 


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Soneto dramático.

http://filipaqueiroz.files.wordpress.com/2008/01/luzes-no-palco.jpg

SONETO DRAMÁTICO

O Incesto. Drama em 3 atos. Ato primeiro:
Jardim. Velho castelo iluminado ao fundo.
O cavaleiro jura um casto amor profundo,
e a castelã resiste... Um fâmulo matreiro

vem dizer que o barão suspeita o cavaleiro...
ele foge, ela grita... – Apito! – Ato segundo:
um salão do castelo. O barão, iracundo,
sabe de tudo... Horror! Vingança! – Ato terceiro:

em casa do galã, que, sentado, trabalha,
entra o barão armado e diz: “Morre, tirano,
que me roubaste a honra e me roubaste o amor!”

O mancebo descobre o peito. – “Uma medalha!
Quem ta deu?!” – “Minha mãe!” – “Meu filho!” Cai o pano...
À cena o autor! À cena o autor! À cena o autor!

Artur de Azevedo.

http://3.bp.blogspot.com/_RilWo-yQY5E/SIpIgKfeD9I/AAAAAAAAAR4/8-9u18blgSw/s400/Artur_de_Azevedo.jpg
Irmão do romancista Aluísio de Azevedo, Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo nasceu em São Luís do Maranhão, em 07 de julho de 1855. Começou a escrever muito cedo, ainda menino, e desde essa ocasião manifestou interesse pelo teatro. Empregado no comércio, ingressou depois no funcionalismo do Maranhão, do qual foi injustamente demitido, diz-se que por se sentirem atingidos por suas “Carapuças” alguns figurões da província. Mudou-se para o Rio de janeiro, onde fez carreira burocrática, de amanuense a diretor-geral, posto no qual sucedeu a Machado de Assis. Militou na imprensa, escreveu e traduziu copiosamente para o palco; importou o gênero “revista”. Fundador da Academia brasileira, faleceu no Rio de Janeiro em 22 de outubro de 1908. Sua morte comoveu os círculos literários porque, depois de tanto labor, não deixara a família ao abrigo da necessidade, e também porque estava em plena produtividade intelectual.

Fonte: “Poesia parnasiana” Antologia – Edições Melhoramentos – 1967.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Miserável.

http://blig.ig.com.br/bligdosergiao/files/2009/07/cansado.jpg


MISERÁVEL

O noivo, como noivo, é repugnante:
materialão, estúpido, chorudo,
arrotando, a propósito de tudo,
o ser comendador e negociante.

Tem a viuvinha, a noiva interessante,
todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
alabastro, marfim, coral, veludo,
azeviche, safira e tutti quanti.

Da misteriosa alcova a porta geme,
o noivo dorme num lençol envolto...
Entra a viuvinha, a noiva... Oh, céu, contém-me!

Ela deita-se... espera... Qual! Revôlto,
o leito estala... Ela suspira... freme...
e o miserável dorme a sono sôlto!...

Artur Azevedo.
(1855-1908)