domingo, 3 de abril de 2011

Como um cão.


COMO UM CÃO

Como um cão curvo-me
e procuro ler nas marcas
que a noite não pôde
recolher o tempo.

Anima-me a superfície fabulária
onde o olhar do dia revolve
o que foi alvoroço vida
ou sinal tênue.

Detenho-me na pegada junto à cama
e a mão precavida incha a memoria
nenhuma sensação acende
o que já está perdido.

(Perdidos os meus passos? A minha voz?
é assim tão terrível o amor ao homem?
a justiça foi calcinada em que ritual?)

Pouso então devagarinho
o ouvido na parede úmida
e eis que uma sombra volta-se
num largo aceno de simpatia.

Na paz indizível sopra
a fina aragem desanoitecida
a leve impressão
de um cochichar
uma porta entreaberta
onde pulsa uma esperança

Heliodoro Baptista


Heliodoro Baptista nasceu em Gonhame, cidade de Quelimane, capital da província da Zambézia, a 19 de Maio de 1944. Jornalista, escritor e poeta, era casado com a jornalista Celeste Mac-Artur, editora fotográfica do Diário de Moçambique, diário que se publica na Beira. Deixa viúva e quatro filhos.

Deixou escritas várias obras não publicadas e publicou «Por cima de toda a folha», «Nos joelhos do silêncio», «A filha de Tandy», entre outras peças dispersas.

Foi jornalista do «Notícias da Beira» onde chegou a ser chefe da redacção. Deixou de exercer a profissão de jornalista quando se incompatibilizou com a direcção do "Notícias” que se publica em Maputo, jornal de que na altura era o delegado na Beira. Trabalhou ainda no «Diário de Moçambique». Tinha uma relação de total incompatibilidade com o regime que vigorava em Moçambique e era um fervoroso apoiante do MDM e de Daviz Simango.

Heliodoro Baptista morreu, dia 1 de Maio de 2009, na sua residência na Beira.

Fonte: (Fernando Veloso) - CANAL DE MOÇAMBIQUE - 04.05.2009

7 comentários:

Carla Fernanda disse...

Bom domingo Rosemildo!!
Belo e simpático poema!
Beijos,
Carla

Everson Russo disse...

Belo poema amigo,,,abraços de boa semana pra ti.

RELTIH disse...

un texto muy disiente.
un abrazo

Lou Witt disse...

Lindo poema!!!

Beijo de domingo, querido!!!

Flor da Vida disse...

Lindo, profundo, e tocante poema!
Parabéns meu amigo, por tão belo post!!!
Carinhos meus pra ti...
Beijos

Livinha disse...

Vida de cão?
A esta altura segue quando já se sente a esperança esmorecida, como alguém deitado ao chão solícito de afagos e tão alí por vezes esquecido, largado...

Será que bem compreendi o poema do autor, tão implícito e ao mesmo tempo radical nas suas colocações?

Bom, não sei. Está aí meu parecer sentido...

Furtado meu amigo, tenha uma brilhante semana, mas cá entre nós, jamais se sinta como o autor, um cão, o cão não merece, coitado tão amigo, sem cobranças.... rsrs

Livinha

OutrosEncantos disse...

este post impressionou-me francamente!
eu já tinha visto esse olhar nos meus resumos e hoje vim aqui porque te encontrei silencioso pelos meus cantos, e esse olhar, olhos nos olhos, como um que eu perdi, faz tempo, exactamente assim, o mesmo olhar, o mesmo focinho comprido e negro, o mesmo tom de "pele", triste assim, à espera do segundo em que o coração ia deixar de bater..., olhos nos olhos, assim triste, deitada de lado... e como quem pergunta, porquê?!....
foi uma das minhas maiores perdas!
abraço, Furtado!

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