segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Restos de esperança.


...RESTOS DE ESPERANÇA

Por razões profundamente íntimas, ela, por uma grande e desalentadora tristeza, é constantemente atormentada.

É algo latente, talvez, inseparável de sua alma. São grilhões aprisionando todos os seus pensamentos. Sente-se em angustia permanente. É uma aflição exclusivamente pessoal. Que, de certo modo, tem envolvimento com o seu nome: Isabel.

A razão desse nome: uma homenagem a quem assinou a “Lei Áurea”. Pensava sempre; “-escravos libertos... A expressão de liberdade há séculos aprisionada... Até a religião, ao lado dos senhores de escravos, era prazerosamente algoz... Uma infâmia para quem se dizia acreditar em DEUS”. Izabel, enquanto caminha sente os seus pensamentos se soltarem. Mas, cisma em sua autopercepção. Atentamente envolve-se com o que se passa com os escaninhos de sua mente... “- Escravos libertos, mas, só da permanente escravidão...” Quando finca-se no passado de sua raça, vê-se em situações desagradáveis. Dentro de si, esses sofrimentos estão presentes.

A sua tristeza tem um sentimento profundo de uma cruel e constante realidade.

Izabel, ainda menina com dez anos... Bernadete, a sua mãe, dentro do possível, estica seu cabelo. Completando o penteado, põe um laço vermelho. Ela, toda frajola, alegre, saltitante, vai à escola. Pelo caminho e na escola, à sua pessoa, as agressões se repetem. “Negrinha, esse laço vermelho é pra gente não notar que seu cabelo é feito de bosta de rolinha?” As risadas estouram e a humilhação velozmente penetra no âmago do seu ser. As lágrimas, como lâminas de fogo, descem abrindo regos amargos em sua face. Em contrapartida, com afinco dedica-se aos seus estudos. Aos poucos, ano após ano, galga todos os primeiros lugares do colégio. Além de estudiosa procura se dedicar as boas leituras, adquirindo ótimo conhecimento e esmerada educação.

O seu progresso educativo cresce com a admiração dos seus familiares e de outras pessoas. Finalmente chega a época do tão esperado vestibular. Área preferida: pedagogia. Dias de ansiedade, finalmente o resultado: passou em décimo lugar. Mas, não foi como pretendia, pois, aprendera a ser uma perfeccionista. Passado algum tempo, Izabel, intimamente consola-se.

Os anos, puxados por dias e noites, somam-se aos permanentes giros deste planeta. E, Izabel vê-se diante daquela auspiciosa ocasião: o recebimento do diploma. Ali, ao seu lado o noivo, pele escura como a sua, alegra-se quase ao êxtase.

Roberto, o seu nome, é empresário bem sucedido. Nesse dia, anunciaram as núpcias. A espera da data aprazada, os corações dos noivos batem uníssonos, como asa em harmonioso voo, unidas a um só pássaro. Chega o dia mais intensamente desejado aos dois. Tudo nesse dia parece ter brilho diferente. Casaram-se. Passaram-se os meses. Chega a primeira criança, sexo: feminino. Roberto, o pai, fica decepcionado. Vira-se para Izabel e diz: “- da próxima vez vamos caprichar para fazer um filho homem”... Porém, tempos depois, nasce outra menina. Roberto por demais ignorante, irrita-se.

As invisíveis teias do insondável destino trouxeram-lhes novas surpresas. Nasceram só meninas: cinco ao todo. Roberto desapareceu de casa para sempre. Surgem notícias ou boatos, coisas vagas, parecendo sem nexo. “-Roberto vendeu sua empresa e fugiu com a secretária loura... belíssima”.

Izabel, antes que os víveres acabassem, saiu a procura de emprego. Levando o seu currículo, visitou várias escolas. As negativas surgem, às vezes antes que ela justifique ter plena capacidade para a função. Ouve muitas e ferinas agressões verbais. “Não aceitamos negras, como professora, neste colégio. Só se for para serviço de limpeza, cujo lugar já está ocupado”.

Muitos dias se passaram e, inevitavelmente a fome se faz presente nos estômagos de Izabel e de suas cinco filhas. Chega o dia de Natal. Nem alimentos, nem presentes.

Na manhã seguinte, 25 de dezembro, Izabel, entre lágrimas ardentes, vê vindo na rua as suas filhas conduzindo caixas nas quais estão estampadas fotografias de bonecas... Convulsivamente chora, dizendo em desabafo íntimo: “- Para mim, são os restos de esperança”.

Otacílio Negreiros Pimenta
In Memorian

10 comentários:

Zélia Guardiano disse...

Texto belíssimo, Rosemildo!
Excelente maneira que encontrei de inicia a semana.
Graças a você!
Enorme abraço, amigo!

ANTOLOGIA POÉTICA disse...

No bater, no quebrar
e no rolar de tantas
pedras, fiz esses versos
para ti ✿M@RIA✿, no
encontro das águas e na
a poesia que vive dentro
de mim.

o.vasconcelos

Amor & Paz no seus FDS...Beijos meus! M@ria

Everson Russo disse...

Belissimo texto meu amigo,,,uma otima semana e bom feriado pra ti. abraços.

Rosane Marega disse...

Rosemildo, como sempre um texto perfeito que encanta...é o Rosemildo ne...beijosssssssss em seu coração e uma semana linda com um gostoso feriado.

Thatica. disse...

Parabéns pelo texto e obrigada por passar em meu blog, sua opinião é muito importante pra mim!

beijo e boa semana pra vc!
que Deus abeñçoe sua vida.

Fatima disse...

Que texto heim!!!!
Bjs.

Sonhadora disse...

Meu querido amigo
Um texto muito lindo e profundo...cheio de emoção.

Beijinhos com carinho
Sonhadora

reltih disse...

la historia de la tierra siempre sera maravillosa.
un abrazo

Wanderley Elian Lima disse...

Muito lindo, mas muito triste. O que mais preocupa é que o preconceito racial ainda está aí.
Abração

Livinha disse...

Abençoada foi meu querido amigo.
Razão desbravadora, escritas nos versos mais infinitos...

Belíssima postagem

Bjs

Livinha

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