terça-feira, 26 de outubro de 2010

A Sésta.


A SÉSTA

Pierrot escondido por entre o amarello dos gyrassois espreita em cautela o somno d'ella dormindo na sombra da tangerineira. E ella não dorme, espreita tambem de olhos descidos, mentindo o sôno, as vestes brancas do Pierrot gatinhando silencios por entre o amarelo dos gyrassois. E porque Elle se vem chegando perto, Ella mente ainda mais o sôno a mal-resonar.

Junto d'Ella, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois os joelhos redondos e lizos, e já se debruçava por sobre os joelhos, a beijar-lhe o ventre descomposto, quando Ella acordou cançada de tanto sôno fingir.

E Elle ameaça fugida, e Ella furta-lhe a fuga nos braços nús estendidos.

E Ella, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a fronte num grande perdão. E, feitas as pazes, ficou combinado que Ella dormisse outra vez.

Almada Negreiros,
in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'


José Sobral de Almada Negreiros nasceu em São Tomé e Príncipe, Portugal, no ano de 1893.

Em 1905 já redigia e ilustrava jornais manuscritos (A República e O Mundo). Publicou seu primeiro desenho em A Sátira e faz sua primeira exposição individual de 90 desenhos, em 1913.

Escreveu o Manifesto Anti-Dantas e por extenso e foi publicado o primeiro número da revista Orpheu. Pela polêmica que detonou, é talvez o texto doutrinário mais conhecido de Almada. Foi escrito em 1912, mas impresso sobre papel de embrulho em abril de 1913. O Manifesto é um texto que maldiz uma das figuras da literatura portuguesa que, durante algumas décadas, representou a cultura acadêmica e conformista, influenciando todo um conjunto de escritores, jornalistas, políticos e atores. Tratava-se de Júlio Dantas, cuja peça de teatro Mariana Alcoforado foi satirizada em jeito de caricatura social, por Almada. Numa passagem de O Manifesto, o futurista critica Dantas deste modo: Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrizinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!

Retornou de sua estada em Paris, em 1920.

No ano de 1925 pintou dois painéis para A Brasileira, um café do Chiado, em Lisboa. De 1927 a 1932 morou em Madrid. Em 1938, concluiu os vitrais da Igreja de Nossa Sra. de Fátima. Pintou o famoso retrato de Fernando Pessoa (Lendo Orpheu), para o restaurante “Irmãos Unidos”, em 1954.

Em 1951, o SNI lhe conferiu o “Prêmio Nacional das Artes”. Em 1966 foi eleito membro honorário da Academia Nacional de Belas Artes. No ano seguinte recebeu o Grande Oficialato da Ordem de Santiago Espada. No ano de 1970, o pintor e escritor morreu em Lisboa, no mesmo quarto em que morrera o poeta Fernando Pessoa.

Companheiro de geração de Pessoa, é considerado um dos maiores pintores lusos, além de escritor e agitador cultural. Sua importância na cultura portuguesa é sentida mesmo após sua morte. Deixou contos espalhados por revistas de vanguarda de curta duração.

Fonte: http://www.passeiweb.com/

15 comentários:

Sônia Silvino disse...

Oi, Rosemildo querido!
Vim absorver cultura por aqui.
E vim retribuir a tua amável visita que é muito preciosa para mim.
Que a tua semana seja simplesmente maravilhosa!!!
Beijocas, muitas!
Sônia Silvino's Blogs
Vários temas & um só coração!

Wanderley Elian Lima disse...

Olá amigo
O quase puro amor de Pierrot. Chamou-se a atenção o português arcaico do poema. Muito bom.
Abração

Sandra Botelho disse...

Ai que coisa mais romantica...
Fingir o sono a espera do amor do amado.
Que lindo meu querido.
Bjos achocolatados

POESIA CÁ E LÁ disse...

Bom dia!!!

Visitando!!
Aprendendo!!
Absorvendo!!

Beijos ternurentos

Clau Assi

Everson Russo disse...

Uma historia cercada de minucias e amor..abraços de bom dia pra ti amigo.

mundo azul disse...

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Belo e romântico o texto! Encanta esse tipo de amor, que não se encontra mais...

Obrigada, pela partilha!


Beijos de luz e o meu carinho...


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Valéria Sorohan disse...

Lindo conto, amei. O que me encantou também foi a ortografia antiga.

BeijooO*

Professora Carla Fernanda disse...

Bom dia Rosenildo! Grande poeta. Eu adoro a figura so pierrot sempre, inspira muitos sentimentos. Lindo!
Carla Fernanda

Ira Buscacio disse...

Furtado, querido,

Quanto lirismo!

Um lindo trabalho de pesquisa que vc faz. Sabe que gosto mt, não?
Sempre bom vir te visitar
Bjssssssss

Fatima disse...

Que bunitinho!
Bjs.

reltih disse...

GRACIAS POR COMPARTIRNOS TAN EXCELENTE RELATO.
UN ABRAZO

Lidia Ferreira disse...

Lindo , maravilhoso
Vim agradecer a vista e conhecer seu blog no qual eu adorei , ja assinei a Petição
bjs

Laura disse...

Tocante. Sempre um prazer vir aqui.

Lou Witt disse...

Passando pra deixar um beijo de carinho e desejar uma linda semana.

Everson Russo disse...

Uma belissima quarta feira pra ti amigo,,,abraços.

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