sábado, 30 de outubro de 2010

A serenata.


A SERENATA

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

Adélia Prado


Adélia Luzia Prado de Freitas, escritora brasileira. Sua poesia de estilo original foi publicada em diversas línguas.

"Achei engraçado quando o poeta tropeçou na pedra, / eu tropeço na lei de jugo suave: amai-vos.", diz Adélia Prado no poema "O servo" (1981), citando o poeta Carlos Drummond de Andrade, um dos primeiros a incentivar e tornar conhecida sua pessoalíssima poesia, hoje traduzida e publicada em várias línguas.

Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 1936 em Divinópolis MG, onde cresceu e se educou. Formou-se em filosofia e trabalhou como professora. Em 1971 publicou, com Lázaro Barreto, o livro de poemas A lapinha de Jesus, mas somente cinco anos depois fez sua estreia individual, com Bagagem (1976), que revelou uma artista de extrema originalidade e lirismo. Outro livro de poemas, O coração disparado, de 1978, trouxe a consagração definitiva da escritora e lhe valeu o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, de São Paulo.

Depois de publicar dois livros de prosa -- Solte os cachorros (1979), de contos, e o romance Cacos para um vitral (1980) -- voltou a impressionar seus leitores com Terra de Santa Cruz (1981), reunião de poemas escritos em linguagem coloquial, inovadora e estranhamente imbuída de religiosidade e erotismo. Na década de 1980, a atriz Fernanda Montenegro apresentou em várias cidades brasileiras o espetáculo Dona Doida, dramatização dos poemas desse livro, entre outros, e contribuiu para popularizar a obra da poetisa mineira, que pouco alterou sua rotina de esposa, dona de casa, mãe e avó em função do sucesso de sua literatura. Em 1984 publicou Os componentes da banda, de poemas. A obra de Adélia Prado inclui ainda trabalhos dispersos em jornais, revistas e antologias literárias.

Fonte: ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

9 comentários:

M@ria disse...

Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar,
as imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...
toda a tristeza dos rios
é não poderem parar!

Mário Quintana

Belo amanhecer e um FDS abençoado! M@ria

Rosane Marega disse...

Nossa...adorei isso Rosemildo!
Beijosssssssssssss

Everson Russo disse...

Lua,,,serenata,,,sempre unidos ao amor...abraços amigo e um belo sabado pra ti.

Claudinha Monteiro disse...

Boa pergunta, Adelia. Boa pergunta.
Eu, que não verso sem rimar, ainda não posso responde-la. Quem sabe quando eu crescer?
Mas a criança em mim arrisca dizer: pra que fechar a janela?
hehehe
bjos, querido. Bela postagem.

Marina-Emer disse...

muy bonitos versos los de adeila ...lo entendi muy bien pero no lo escribo...feliz fin de semana...gracias por tus bonitas palabras en mi blog
besos
Marina

Sandra Botelho disse...

Queria um espelho que não relfetisse as marcas do tempo, mas que me lembrasse como elas vieram repousar ali.
Em cada marca que trago no rosto, uma história vivida...
Não me envergonharei de minhas rugas, elas são pra mim como um troféu.
Bjos achocolatados

Livinha disse...

Não tem como não se colocar vencida,
toda uma ansiedada sentida,
razão por tanto querer...
Santa ou doida, por que, se o
coração já não segura as moléstias
da ventura, o sentimento de ter...

Lindo poema,
um retrato da esperança, na certeza
da ventura.

Feliz domingo.

Bjs

Livinha

ps:Onde estão teus poemas poeta?
Vixi, tô sentindo saudades...

Chris... ჱܓ disse...

Olá meu amigo...
Teu blog está show...

"- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?"

Adoro essa passagem do poema...
Sempre gostei.
Nos mulheres e as nossas fases...

Obrigada pelo carinho sempre tá...

Tenha um lindo domingo e uma semana cheia de paz e alegrias.
Beijos no coração!

REGGINA MOON disse...

Furtado,

Esse é um dos versos que mais amo de Adélia Prado...é genial...ela descreve o passar do tempo e a certa melancolia que isso acarreta...de uma forma divina!!

Bela postagem!

Grande beijo e boa semana!!

Reggina Moon

‎"Yo no creo en brujas...pero que las hay...las hay!!!" [Miguel de Cervantes]

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