terça-feira, 13 de julho de 2010

Noturno.

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NOTURNO

Sozinho
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou...
criança de novo
eu sinto que sou:

— Que diabo tu vieste fazer aqui, Ascenso?

O rio soturno,
tremendo de frio,
com os dentes batendo
nas pedras do cais,
tomado de susto
sem poder falar...
o rio tem coisas
para me dontar:

— Corrre senão o Pai-do-Poço te pega, condenado!

Das casas fechadas
e mal-assombradas
com as caras tisnadas
que o incêndio queimou
pelas janelas esburacadas
eu sinto, tremendo,
que um olho de fogo
medonho me olha:

– Olha que o Papa-Figo te agarra, desgraçado!

Dos brutos guindastes
de vultos enormes
ainda maiores
nessa escuridão...
os braços de ferro,
pesados e longos,
parece quererem
suster-me no chão!

Ai! Eu tenho medo dos guindastes,
Por causa daquele bicão!

Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou...
criança de novo
eu sinto que sou:

— Larga de ser vagabundo, Ascenso!

Ascenso Ferreira


http://www.promata.pe.gov.br/internas/turismo/img/palmares.jpg


Ascenso nasceu no dia 9 de maio de 1895 em Palmares, cidade do interior de Pernambuco. Foi registrado como Aníbal, mas em 1917 muda o nome para Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira. Órfão de pai aos 7 anos, teve em sua mãe, uma professora primária abolicionista, sua primeira e maior mestra. Aos treze anos já trabalhava no comércio, na loja do seu padrinho. Lá teve contato com viajantes e suas estórias. Muito de sua infância interiorana estão em memoráveis poemas como em Minha Escola.

Foram essas "lindas histórias" que Ascenso usou para compor uma verdadeira rapsódia poética nordestina. São poemas com gosto da terra, de "Cana Caiana", de "Bumba-Meu-Boi", "Cavalhada", "Maracatu", "Mulata Sarará", "Xangó", "Xenhenhém"... Sua temática é a vida nordestina, e seus versos são de uma naturalidade que poucos alcançaram, como os de Manuel Bandeira e José Lins do Rego na prosa.

Tão natural que pula entre versos livres e metrificados, chegando até mesmo a fechar com chaves-de-ouro. Une o verso metrificado com o livre, com rima, toada e cadência própria de forma espontânea, como se "já tivesse vindo pronto” e não fossem resultados de construção poética. A "versatilidade do tom, as surpresas do humour, a poesia profunda de certos momentos da vida e da linguagem cotidianas" foi o que Ascenso aproveitou do modernismo, segundo Manuel Bandeira prefaciando um de seus livros.

Ascenso transmite uma musicalidade própria que faz seus poemas ganharem outra dimensão quando ouvidos. E chega a estar no limiar entre o verso e a música.

Mário de Andrade, escrevendo ao Diário Nacional em 1927 a respeito do lançamento do livro Catimbó, reconhecia que "só mesmo Ascenso Ferreira com este Catimbó trouxe pro modernismo uma originalidade real, um ritmo verdadeiramente novo". Em 1928 Ascenso trava um conhecimento pessoal com o autor de Paulicéia Desvairada e no ano seguinte se aproxima de vários intelectuais paulistas, como Cassiano Ricardo, Anita Malfatti, Menoti Del Picchia, Oswald de Andrade, Afonso Arinos e Tarsila do Amaral. Em 1951 grava LP com seus poemas, sendo o primeiro poeta brasileiro a gravar seus poemas em disco. Em 1955 é o 4o poeta brasileiro que tem sua voz gravada para a Biblioteca do Congresso em Washington. Morre no dia 5 de maio de 1965 no Recife.


http://www.detetivez.hpg.ig.com/

8 comentários:

Fatima disse...

Bom dimais da conta Ascenso Ferreira!
Já escrevi sobre ele lá no blog, você se lembra?
Bjs meu querido e uma ótima semana para vc.

Livinha disse...

Não conhecia o autor.
Adorei!
Lindo poema, tão descritivamente
engraçado que o Sr. Ascenso no seu humor cheio de senso, paisagem criativa pintou, pois que esse belo vagabundo, bem colocado no mundo, versos lindos proseou...

Adoro o trocadilhos, amo de paixão. O repentismo, colocado nas veias nordestina...

Furtado meu querido amigo, tenho um e-mail lindíssimo pra te mandar de José Saramago. Comprido de viver e muito profundo...
haverei de te mandar, tão logo consiga fazer a travessia aqui nesse nosso mundo blogosferiano..

Me aguarde!

Bjs

Livinha

Lianara **Lia** disse...

Olá meu amigo!

Que delícia de leitura!
Eu não conhecia o autor e adorei a forma de escrever, muito original!

Beijos

Lia

Blog Reticências...

Helcio Maia disse...

Ah!! que saudade das ruas, desertas ou não, de Recife. Boa Viagem, Recife Antigo, Piedade...as cores, ossabores, os amores de Recife.
Bom dia e boa semana, amigo Furtado.

Wanderley Elian Lima disse...

Essa riqueza de vocabulário regional, é que nos mostra como é grande e rico em cultura o nosso país. Amei.
Grande abraço

Valéria Sorohan disse...

Muito bom amigo, achei bem divertido esse poeta.

BeijooO

reltih disse...

siempre es un gusto visitarte.
un abrazo

ONG ALERTA disse...

Valorizar suas raizes, paz.
Beijo Lisette

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