terça-feira, 23 de março de 2010

Ave! Maria!

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AVE! MARIA!


A noite desce, – lentas e tristes
Cobrem as sombras a serrania,
Calam-se as aves, – choram os ventos,
Dizem os gênios: – Ave! Maria!


                                      Na torre estreita de pobre templo
                                      Ressoa o sino da freguesia,
                                      Abrem-se as flores, – vésper desponta,
                                      Cantam os anjos: – Ave! Maria!


No tosco alvergue de seus maiores,
Onde só reinam paz e alegria,
Entre os filhinhos o bom colono
Repete as vozes: – Ave! Maria!


                                     E, longe, longe, – na velha estrada,
                                     Pára, – e saudades à pátria envia,
                                     Romeira exausta, que o céu contempla
                                     E fala aos ermos: – Ave! Maria!


Incerto nauta por feios mares,
Onde se estende névoa sombria,
Se encosta ao mastro, descobre a fronte,
Reza baixinho: – Ave! Maria!


                                    Nas soledades, sem pão nem água,
                                    Sem pouso e tenda, sem luz nem guia,
                                    Triste mendigo, que as praças busca,
                                    Curva-se e clama: – Ave! Maria!


Só nas alcovas, nas salas dúbias,
Nas longas mesas de longa orgia
Não diz o ímpio, – não diz o avaro,
Não diz o ingrato: – Ave! Maria!


                                   Ave! Maria! – No céu, na terra!
                                   Luz da aliança! – Doce harmonia!
                                   Hora divina! – Sublime estância!
                                   Bendita sejas! – Ave! Maria!


Fagundes Varela.

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Luís Nicolau Fagundes Varela, poeta, nasceu em Rio Claro, RJ, em 17 de agosto de 1841, e faleceu em Niterói, RJ, em 17 de fevereiro de 1875. É o patrono da Cadeira n. 11, por escolha do fundador Lúcio de Mendonça. Era filho do Dr. Emiliano Fagundes Varela e de Emília de Andrade, ambos de famílias fluminenses bem situadas. Passou a infância na fazenda natal e na vila de S. João Marcos, de que o pai era juiz. Depois, residiu em vários locais. Primeiro em Catalão (Goiás), para onde o magistrado fora transferido em 1851 e onde Fagundes Varela teria conhecido o juiz municipal Bernardo Guimarães. De volta à terra natal, residiu em Angra dos Reis e Petrópolis, onde fez os estudos do primário e secundário. Em 1859, foi terminar os preparatórios em São Paulo. Só em 1862 matricula-se na Faculdade de Direito, que nunca terminou, preferindo a literatura e dissipando-se na boêmia. Em 1861, publicara o primeiro livro de poesias, Noturnas.

Contraiu matrimônio com a artista de circo Alice Guilhermina Luande, de Sorocaba, que provocou escândalo na família e agravou-lhe a penúria financeira. O primeiro filho, Emiliano, morto aos três meses de idade, inspirou-lhe um dos mais belos poemas, Cântico do Calvário. A partir daí, acentuam-se nele a tendência ambulatória e o alcoolismo, mas também a inspiração criadora. Publicou Vozes da América em 1864 e a sua obra-prima Cantos e fantasias, em 1865. Nesse ano, ou em 66, durante uma viagem prolongada a Recife, faleceu-lhe a mulher, que não o acompanhara ao Norte. Ele voltou a São Paulo, matriculando-se em 1867 no 4o ano do curso de Direito. Abandonou de vez o curso e recolheu-se à casa paterna, na fazenda onde nascera, em Rio Claro, onde permanece até 1870, poetando e vagando pelos campos. Deixou-se sempre ficar na vida indefinível de boêmio, sem rumo, sem destino determinado. Casou-se pela segunda vez com a prima Maria Belisária de Brito Lambert, com quem teve duas filhas e um filho, este também falecido prematuramente. Em 1870, mudou-se com o pai para Niterói, onde viveu até o fim da vida, com largas estadas nas fazendas dos parentes e certa freqüência nas rodas da boêmia intelectual do Rio.

Vivendo na última fase do Romantismo, a sua poesia revela um hábil poeta do verso. Em “Arquétipo”, um dos primeiros poemas, faz profissão de fé de tédio romântico, em versos brancos. Embora o preponderante em sua poesia seja a angústia e o sofrimento, evidenciam-se outros aspectos importantes: o patriótico, em O estandarte auriverde (1863) e Vozes da América (1864); o amoroso, na fase lírica, dos poemas ligados à natureza, e, por fim, o místico e religioso. O poeta não deixa de lado, também, os problemas sociais, como o abolicionismo.

Fontes: “Poetas Românticos Brasileiros” – Editora Amadio – Vol. 3, Pgs. 193/194 e “Academia Brasileira de Letras”

12 comentários:

Daniel Cristal disse...

Este é um bonito blogue com textos muito interessantes. Parabéns Rsemildo, amigo, um abraço, Daniel Cristal

Chica disse...

Simplesmente maravilhosa essa poesia de Varela! um lindo dia e sempre escolhes muito bem! abraços,chica

Maria L. Bózoli disse...

Bom dia amigo!!!!
Nada melhor que um texto desses prá iniciar bem o dia.
Obrigada por partilhar coisa tão linda.

Beijos de coração prá coração!!

Everson Russo disse...

Belissima poesia amigo,,,tenha um dia cheio de paz e muito amor no coração,,,forte e fraterno abraço e esteja sempre na paz de Deus.

Si Arian disse...

Bom dia amigo, passei para te prestigiar.
Parabéns na escolha, muito linda.
Abç

Valéria disse...

Oi amigo, gostei da poesia e vida de Fagundes Varela.

BeijooO'

Fatima disse...

Vc sabia que eu Nossa Senhora somos amigas intimas?
E o Fagundes Varela tb é meu velho conhecido, não tão intimo.
Bjs.

Livinha disse...

Que oração mais linda de fagundes, sensível, bela profunda...
é luz de vida, que ilumina nossa estrada,
palavra sublime dos céus, oriunda...
Ave! Maria!

Delicioso café da manhã, que serves em tua mesa meu amigo querido...

Lindo dia pra ti!
Bjs
Livinha

reltih disse...

excelente texto. gracias por compartir.
un abrazo

MARIA L. BÓZOLI disse...

A gratidão é o único tesouro dos humildes.

William Shakespeare


Agradeço seu carinho e amizade........Beijos!!!

Sonhadora disse...

Meu amigo
adoro este poema, é uma maravilha de ler e sentir...lindo.

Beijinhos
Sonhadora

EMOÇÕES disse...

Olá amigo!
Que bela postagem, parabéns!


A noite desce, – lentas e tristes
Cobrem as sombras a serrania,
Calam-se as aves, – choram os ventos,
Dizem os gênios: – Ave! Maria!
(...)

Boa noite e fique com Deus!
Bjs

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