segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A sociedade e o terror.

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A SOCIEDADE E O TERROR

Sabemos que há vários tipos de medo. Uns com existências visíveis, outros não. Há alguns, às vezes como sequelas, em sutis e profundas manifestações psicológicas. Esses, em latentes vibrações, são um tormento para algumas pessoas. Quem é vítima desse sofrimento, torna-se infeliz possuidor do medo implantado insidiosamente em sua consciência. Após a real ocorrência, difícil é se livrar do constante assédio psicológico das vividas cenas de horror. Talvez, os piores medos sejam os reais, de conseqüências físicas e morais. Especialmente aqueles que deixam as pessoas com o maior sentimento de pavor, como se algo parecido pudesse acontecer a qualquer momento. Dentro de si vibra uma constante sensação de pavor, como um sinal de permanente alerta. O temor que mais atormenta o brasileiro, acentuadamente nos grandes centros urbanos, é o de ser assaltado ou sequestrado. Infelizmente, isso já está acontecendo em cidades de porte médio e em algumas menores.

A impunidade está incentivando e generalizando a tal ponto (ou além) que, em alguns casos, ser assaltante, traficante de drogas, sequestrador ou agenciador da prostituição infantil, é uma rendosa profissão, tendo por base, pessoas muito bem preparadas para o crime. Em alguns casos, num verdadeiro contra senso, há maus policiais que se envolvem com assaltos, drogas, prostituição e sequestro. Esses péssimos elementos vivem em ações paralelas, numa dualidade de procedimentos que contrariam o bom senso e fere a dignidade humana. Eles são policiais transvertidos de bandidos que usam de suas prerrogativas, fardas e armas, em sentido contrário as suas normais e obrigações. O nosso povo, através de impostos altíssimos, sofridamente paga por sua segurança e, em troca, recebe criminosas agressões. Essa imoral verdade, uma anomalia em nosso contexto social, precisa o mais rápido possível, ser totalmente eliminada. Os culpados devem ser julgados e, através de rigoroso processo judicial, condenados as penalidades que merecem.

A maioria desses crimes, com todos os requintes de perversidades, tem um fortíssimo ingrediente: as drogas. Nas atormentadoras cenas dos audaciosos crimes, há, sem dúvida, os psicotrópicos e alucinógenos de última geração. Sem o uso das drogas, esses bandidos, alguns adultos, outros ainda crianças, não seriam tão audaciosos, sanguinários e brutais assassinos. Por trás dessas violentas ações estão os traficantes de drogas muito bem organizados. Esse mau comportamento só será erradicado, no Brasil, e neste planeta, quando as drogas estiverem sob controle – servindo a objetivos edificantes. O lado positivo das drogas deve servir a outros propósitos mais elevados, com aplicações na área médica, etc. Pesquisas sérias deverão ser feitas, alcançando as suas reais e positivas finalidades.

A tranquilidade plena do ser humano é algo quase impossível de existir, de se conseguir, de se viver. Mas, quando se quer verdadeiramente, nada é totalmente impossível. Autodirecionando-se firmemente a fim de alcançar o que se deseja, é possível atingirmos as nossas metas. Evidentemente, com a adoção inabalável de métodos adequados de combate as drogas, a prostituição infantil, aos assaltos e aos sequestros, poderemos conseguir a tranquilidade necessária. Antes que isso aconteça realmente, a nossa sociedade é a maior de todas as vitimas. Diante da escalada da violência e da perpetração de hediondos crimes, as instituições formadoras de opinião precisam dar a sua direta e irrestrita contribuição a fim de serem erradicadas essas atrocidades. Essas instituições, de todos os posicionamentos ideológicos e religiosos, precisam se envolver no sentido de que os problemas, aqui mencionados, sejam resolvidos. Se isso fosse feito com rigor, num futuro próximo os caminhos das drogas, da prostituição infantil, dos assaltos, dos sequestros e dos crimes mais nefandos, seriam bem mais estreitos. E, certamente, um dia, esses caminhos estariam extintos.

Otacílio Negreiros Pimenta
In Memorian

domingo, 29 de novembro de 2009

Soneto da separação.

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SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente o riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.


De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do movimento imóvel fez-se o drama.


De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.


Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


Vinicius de Moraes.
(1913-1980)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Recusa.

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RECUSA

Do silêncio ou do cárcere cativo,
Contando um dissabor a cada instante.
Não tem meu coração bater vibrante,
Não sei se morto estou ou se estou vivo.

Para este meu viver tão purgativo.
A tepidez deste teu ronco arfante,
Teu carinho e teu beijo provocante,
Não trarão alegrias e lenitivo.

Sem tua voz eu ouvir, ou se eu ouvisse,
Tuas palavras doces, sonorosas,
Cheias de encanto e cheias de meiguice.

Surgiram-me raios de esperança.
Prazer, claras manhãs, tardes de rosas,
Porque de amar meu coração não cansa.

R.S. Furtado.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Revelações.

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REVELAÇÕES

Recebi da amiga Maria Madalena o desafio de completar estas cinco frases.

Eu Já...
Eu nunca...
Eu sei...
Eu quero...
Eu sonho...

Estas são minhas respostas:

Eu já não suporto mais um mundo tão vil, com tanta maldade.
Eu nunca pensei participar de uma sociedade tão rude e decadente.
Eu sei que só DEUS o consertará, com a sua infinita bondade.
Eu quero e peço uma solução a ELE, que é tão solícito e complacente.
Eu sonho com a certeza desse sonho se transformar em realidade.
Eu vou brindar com a ascensão e a felicidade de todo o ser vivente.

Ob: A sexta frase é cortesia da casa.

As regras são designar cinco blogs, que devem indicar de quem receberam o convite.

Livinha do blog: http://livinha27.blogspot.com/
Fátima do blog: http://vivereafinaroinstrumento.blogspot.com/
Andresa do blog: http://coisinhasdebibiba.blogspot.com/
Helô do blog: http://felina-mulher.blogspot.com/
Lili do blog: http://africaempoesia.blogspot.com/

Gostaríamos de deixar bem claro que o fato de termos indicado somente cinco amigos, deu-se ao fato da exigência da regra, porém, a mesma regra, não nos impede de estendermos o desafio a todos os nossos amigos seguidores, bem como, a todos aqueles que nos visitam e estão sempre acompanhando o nosso trabalho, o que muito nos honra.

Beijos,

Furtado.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Poema do nadador.

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POEMA DO NADADOR

A água é falsa, a água é boa.
Nada, nadador!
A água é mansa, a água é doida,
aqui é fria, ali é morna,
a água é fêmea.
Nada, nadador!
A água sobe, a água desce,
a água é mansa, a água é doida.
Nada, nadador!
A água te lambe, a água te abraça
a água te leva, a água te mata.
Nada, nadador!
Senão, que restará de ti, nadador?
Nada nadador.

Jorge de Lima.
(1895-1953)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Retrato.

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RETRATO


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil
– Em que espelho ficou perdida
a minha face.


Cecília Meireles.
(1901-1964)

domingo, 22 de novembro de 2009

Incompreensão.

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INCOMPREENSÃO

O senhor nos legou com suprema bondade,
Este mundo ideal, generoso e criador.
Indicando o dever de honradez e lealdade,
Ao cultivo do bem, ao cultivo do amor.

No entanto, só campeia impudor e maldade,
Manchando a candura espalhando terror.
Em lugar da justiça e da nobre verdade, 
Acolhe-se mentira e nega-se o valor.

Acata-se a violência, acusa-se o que é terno.
Desdenha-se a moral, a descrença persiste,
Pois só incompreensão a humanidade ostenta,

Este mundo ideal transforma-se em inferno.
Hoje um edil não é porque a verdade é triste,
“Tudo o que o céu despreza a terra se avarenta”.

R.S. Furtado.

sábado, 21 de novembro de 2009

Irene no céu.

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IRENE NO CÉU


Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.


Imagino Irene entrando no céu:
– Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
– Entra Irene. Você não precisa pedir licença.


Manuel Bandeira.
(1886-1968)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Na fazenda.

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NA FAZENDA

Dorme ainda a fazenda: ao longo da varanda
Repousa o boiadeiro em couros estendidos;
Desponta no horizonte aurora froixa e branda,
No meio do terreiro o cão solta ganidos!

Mas nisso de repente escutam-se alaridos,
Dum sino que desperta estruge a voz nefanda;
Começam a soar conversas e balidos
E a ordem de rigor que rude aos negros manda!

Chegou o começar das lides e trabalhos,
Ressoam do feitor os brados e os ralhos:
A boiada desfila à porta do curral.

Os pretos esfregando os olhos sonolentos
Levando samburás lá vão a passos lentos
Da porta da senzala ao denso cafezal!

Afonso Celso.
(1860-1938)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sonetos.

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SONETOS

Doce Amor – a sorrir-se brandamente
Em sonhos me falou com tal brandura,
Que eu só de o escutar vida mais pura
Senti coar-me n’alma fundamente.

Depois tornou-se o tredo fogo ardente
Que o instante, o ano, a vida me tortura.
Bem longe de gozar tanta ventura,
Cresta-me o rosto agora o pranto quente.

Homem, se homem és no sentimento,
Não zombes, não, de mim tão desditosa,
Nem seja o teu alívio o meu tormento.

Deixa-me a teus pés cair chorosa,
Soltar no extremo pranto o extremo alento,
Que eu morrendo a teus pés serei ditosa.

Gonçalves Dias.
Rio de Janeiro, 6 de novembro de 1847.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Maria.

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MARIA

Onde vais à tardezinha
Mucama tão bonitinha,
Morena flor do sertão?
A grama um beijo te furta
Por baixo da saia curta,
Que a perna te esconde em vão...

Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com mêdo de ti!...
Levas hoje algum segrêdo...
Pois te voltaste com mêdo
Ao grito do bem-te-vi.

Serão amôres deveras?
Ah! Quem dessas primaveras
Pudesse a flor apanhar!
E contigo, ao tom d’aragem,
Sonhar na rêde selvagem...
À sombra do azul palmar!

Bem feliz quem na viola
Te ouvisse a moda espanhola
Da tua ao frouxo clarão...
Com a luz dos astros – por círios,
Por leito – um leito de lírios...
E por tenda a solidão!

Castro Alves
(1847-1871)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Primeiro aniversário.

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PRIMEIRO ANIVERSÁRIO
AOS NOSSOS QUERIDOS AMIGOS!


Exatamente no dia 16 de novembro de 2008, o Arte & Emoções fez a sua primeira postagem com o título TABAGISMO: VAMOS LARGAR? Apresentando um método que criei, com a finalidade de deixar o vício do cigarro. Como o resultado foi positivo, pois larguei o vício que já perdurava por cinquenta e hum anos, resolvi que deveria torná-lo público, pois, quem sabe, alguém poderia querer utilizá-lo e tentar lograr o mesmo êxito que eu. Daí continuei postando algumas baboseiras que escrevo, inclusive, um programa para criação de empregos, enviado na época, para o nosso presidente LULA e para o senador Paulo Paim e postado com o título PROEMP E O DESEMPREGO. Postei também alguns valiosos artigos de autoria de um grande e inesquecível amigo, Otacílio Negreiros Pimenta, que DEUS o abençoe e o guarde e, visando divulgar grandes obras de grandiosos nomes da “Literatura Brasileira” como: Castro Alves, Machado de Assis, Artur Azevedo, Gonçalves Crespo, Luís Delfino, Gregório de Matos, Alberto de Oliveira, e tantos outros, resolvi publicá-las, pois, com certeza muita gente não as conhece.
Portanto, hoje o Arte & Emoções está completando o seu primeiro ano de existência e, se chegou aonde chegou, foi graças a DEUS e a todos aqueles que, seguidores ou não, nos visitam e nos prestigiam através dos seus comentários com belas palavras de apoio, que somente nos estimulam a continuar.
Queremos aqui, agradecer a todos indistintamente e dizer que o sucesso do Arte & Emoções deveu-se a atenção e ao apoio que têm dado ao nosso trabalho e, portanto, esta comemoração é extensiva a todos.

MUITO OBRIGADO DE CORAÇÃO!

Beijos nos corações.

Rosemildo Sales Furtado.

sábado, 14 de novembro de 2009

Luz entre sombras.

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LUZ ENTRE SOMBRAS

É noite medonha e escura,
Muda como o pensamento,
Uma só no firmamento
Trêmula estrela fulgura.

Fala aos ecos da espessura
A chorosa harpa do vento,
E num canto sonolento
Entre as árvores murmura.

Noite que assombra a memória,
Noite que os medos convida
Erma, triste, merencória.

No entanto... minh’alma olvida
Dor que se transforma em glória,
Morte que se rompe em vida.

Machado de Assis.
Do livro Falenas – (1870).

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O bêbado.

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O BÊBADO

A vista turva, o crânio atordoado,
Nada o entristece nem tampouco o encanta.
Tomba, tropeça, cai e se levanta,
Vai cair mais distante, do outro lado.

Julga que a bebedeira. O desgraçado,
Os seus desgostos trágicos espantam.
Esbraveja, sorri, às vezes canta,
Talvez algum lampejo do passado.

Vive, e, não sabe ao certo se tem alma,
Fogem-lhe os dias, e ele jamais sente,
Ruir-lhe do vício o cansaço tão voraz.

Se acaso, o sono, o cérebro lhe acalma,
Ele após despertar, pensa somente,
Em ir para a taverna beber mais.

R.S. Furtado.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Aos caramurus da Bahia.

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AOS CARAMURUS DA BAHIA

Um calção de pindoba, a meia zorra,
camisa de urucu, mantéu de arara,
em lugar de cotó, arco e taquara,
penacho de guarás, em vez de gorra.

Furado o beiço, sem temer que morra
o pai que lho envazou cuma titara,
porém a mãe a pedra lhe aplicara
por reprimir-lhe o sangue que não corra.

Alarve sem razão, bruto sem fé,
sem mais eis que a do gôsto, quando erra,
de Paiaiá tornou-se em abaité.

Não sei onde acabou, ou em que guerra:
só sei que dêste Adão de Massapé
procedem os fidalgos dessa terra.

Gregório de Matos.
(1633-1696)
Poesia Barrôca.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Flor da mocidade.

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FLOR DA MOCIDADE

Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor,
Eu conheço a mais bela flor,
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste,
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val,
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.

Machado de Assis.
Do livro Falenas-(1870).

domingo, 8 de novembro de 2009

Pouco importa.

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POUCO IMPORTA

Pouco importa que agora chova,
Ou também que se espalhe o sol.
Pouco importa que a terra se mova,
Ou que se mantenha num ponto só.

Pouco importa se a lua é cheia,
Crescente, nova, ou minguante.
Pouco importa se está muito feia,
Ou se está linda e brilhante.

Pouco importa a hora do dia,
Se tarde, noite, ou madrugada.
O mais importante é a companhia,
Que ora me faz, minha bem amada.

Pouco importa se está muito calor,
Ou mesmo frio, ou gelado lá fora.
O que importa é este lindo amor,
Que aqui dentro curtimos agora.

R.S. Furtado.

sábado, 7 de novembro de 2009

Das cousas do mundo.

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RESPOSTA A INSTABILIDADE DAS COUSAS DO MUNDO

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
depois da Luz, se segue a noite escura,
em tristes sombras morre a formosura,
em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na luz falta a firmeza,
na formosura não se dê constância,
e na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
e tem qualquer dos bens por natureza
a firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos.
(1633-1696)
Poesia Barrôca

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Miserável.

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MISERÁVEL

O noivo, como noivo, é repugnante:
materialão, estúpido, chorudo,
arrotando, a propósito de tudo,
o ser comendador e negociante.

Tem a viuvinha, a noiva interessante,
todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
alabastro, marfim, coral, veludo,
azeviche, safira e tutti quanti.

Da misteriosa alcova a porta geme,
o noivo dorme num lençol envolto...
Entra a viuvinha, a noiva... Oh, céu, contém-me!

Ela deita-se... espera... Qual! Revôlto,
o leito estala... Ela suspira... freme...
e o miserável dorme a sono sôlto!...

Artur Azevedo.
(1855-1908)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

As fases da vida.

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NAS FASES DA VIDA

Quando o desabrochar da vida, temos,
É só pelo futuro que esperamos.
Gozamos com devoção o que colhemos,
No presente, e no passado não ligamos.

Chegam tempos, porém, que compreendemos,
Quanto nós, a nós mesmos enganamos;
Se a vida é bela, é quando florescemos,
Não na velhice, que murchando estamos.

E o viver passa a ser abismo escuro,
Então, nós entendemos que o futuro,
Nada mais é que um sonho irrealizado.

E o que nos resta, é confortadamente,
Suavizarmos as mágoas do presente,
Com a cândida lembrança do passado.

R.S. Furtado.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Finados.

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FINADOS

Mãe,
hoje é dia de finados.

Não, não é remorso. Neste momento
leio nos jornais que milhares de criaturas
se atropelam nos cemitérios
levando flores a seus mortos.

Não vou lá, mãe. Não gosto de cemitério,
lá não sei te encontrar,
nem me sinto em paz,
perdido entre multidões...
E sofro de imaginar-te, imóvel, prisioneira
num gavetão de concreto empilhado num muro
branco, de lamentações...

Não, mãe, não me sinto em paz,
nem adianta procurar-te em meio a tanta gente estranha,
misturar tua imagem tão viva quando te penso viva,
com a lembrança da morte que deforma e desfigura
e com lutos e flores convencionais.

Ah, depois que partiste
não gosto de pensar onde te encontras.
Em minha aflição,
hás de ter a certeza de que todo dia
é dia de finados
em meu coração.

J.G. de Araújo Jorge

domingo, 1 de novembro de 2009

Maria Antonieta.

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MARIA ANTONIETA

Dando a este poema alta feição de escudo,
arde-me em lava a ideia! Enfim aquilo
que este ouro der, este ouro que burilo
tem de radiar sob o cinzel agudo.

Rosas, acantos, símbolos... Ah! tudo
que afirme o império da que n’alma asilo!
Floreio o bronze; estro e lavor de estilo
neste ouro deixo e neste bronze estudo.

Febril, finos espíritos invoco...
Repontam signos, esmerilho a rima,
canta e brilha o zodíaco no bloco!

Ei-lo! Brasão da graça, a glória o anima;
e ao dar-lhe título, afinal, coloco
um diadema de pérolas em cima.

B. Lopes.
(1859-1916)
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