sábado, 30 de maio de 2009

Cortina entreaberta

CORTINA ENTREABERTA
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Otávio, adulto, vida muito agitada e sofrida. Altos e baixos, consequências básicas do realmente existir. Para transpor os seus obstáculos, a luta é conflitante e árdua. O ideal é vencer, atingir os seus objetivos... Às vezes, surge uma fortíssima impressão que a caminhada existencial se encontra num verdadeiro beco sem saída. Diante disso, é como – em si – o desespero fazer permanente morada. Firmemente ocupando espaços, penetrando em todo o seu ser. É a angústia chegando, para sempre desejando se estabelecer. Nesses instantes, a mente, procurando se compensar, usa as lembranças e se faz resvalar ao passado distante, tornando-o perfeitamente vivo em sua inesquecível memória. São acontecimentos muito distantes, escondidos nos meandros do tempo. Uns agradáveis, outros assustadores. Mas, do passado o que quer é selecionar, um a um, os seus melhores acontecimentos. Os seus casos, um de cada vez, vão surgindo como grãos de areia trazidos pelos ventos, e, formando temporariamente um só morro de recordações. É a formação dos pensamentos, consubstanciados na união das lembranças, com a sensação ali presente – de uma só realidade. É o passado em sentimentos, tornando-se o quase palpável presente, fazendo-se momentaneamente firme e quase inabalável.
A aula, para crianças em início de alfabetização, ia começar. Os alunos soltam-se em suas manifestações infantis. A alegria contagiante, como se fosse um pleno abrir de rosas diante do sol, estampa-se em suas faces. A algazarra é geral, mas, de repente, todas as vozes desaparecem. Os sons, repentinamente, emudeceram, deixando-se ouvir até o bater cadenciado das asas das moscas. Em alguns instantes, o silêncio é total, como o permanecer de coisas inanimadas. Silenciosamente, a professora, D. Laélia, entra na sala de aula. Moça, virgem, que já passara dos trinta anos. Quantos anos, exatos, ninguém sabia. Talvez, fosse um estratégico segredo para possibilitar a realização do seu maior sonho: o casamento. Ela, graciosamente, subiu ao estrado, puxou a cadeira e sentou-se diante da mesinha a sua frente. Após fazer uma rápida verificação do que havia sobre a mesa, estendeu o seu ríspido olhar sobre a classe, de uma só vez, abrangendo todos os alunos. Novamente olha para aquele livro de capa preta, autoritariamente inicia a chamada dos alunos. Vez por outra, levanta a cabeça, arregala os seus olhos castanhos e enruga a testa, talvez, para melhor impor a sua autoridade. Só com esses gestos, o silêncio se faz como uma grande pedra presa ao chão. Uma das vezes, lá pelo meio da aula, usa um tom estridente, aborrecido. Falando, surpreendendo, ela diz: “- O que é isso Otávio?... Todos os dias, você fica nessa posição, sem prestar a necessária atenção à aula - ...professora, o vento derrubou o lápis, a borracha e o meu caderna... “- Que história é essa menino? Agora, não há nenhum vento forte. Nesta manhã, nem as folhas das árvores se mexem. Não suporto mais esse seu astucioso procedimento. Hoje mesmo, o seu pai vai saber”.
O material escolar de Otávio, por ele mesmo, ia sendo cuidadosamente empurrado para o chão. Otávio, sentado ao lado do corredor central de cadeiras, ao abaixar a cabeça para apanhar o seu material propositadamente derrubado, tem uma estratégica visão da parte inferior do corpo da professora... Aquelas pernas femininas, abertas, mostrando duas róseas e roliças coxas, são a permanente e profunda sensação de curiosidade do Otávio... Lá, bem afastado dos joelhos, no começo das coxas, um triangular pano alvo, sempre fechando aquela parte. Aumentando o mistério.
À tarde, o seu pai, Nicomedes, ou Nico para os íntimos, aplicou-lhe uma inesquecível surra. A partir daí, firme em suas lembranças, ficou aquele mistério, cada vez mais escondido pelas mulheres de todas as idades... Duas pernas femininas, afastadas, paralelas, posicionadas em seu começo, estreitam-se, parecendo uma cortina entreaberta, escondendo algo misterioso à vista e ao pleno despertar dos sentidos.


Otacílio Negreiros Pimenta
In Memorian

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Pensando em ti

PENSANDO EM TI
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Hoje eu acordei sorrindo, pensando em ti,
E lembrei dos saudosos momentos que contigo vivi,
Naquelas noites de loucura e de intensa paixão.
Aí então foi quando logo percebi,
Que os doces prazeres, que contigo senti,
Ainda em mim persiste... Grata recordação.

Singelos detalhes... Eternas lembranças,
Sobre os teus ombros, duas lindas tranças,
Ornando teu rosto, que belo exemplar.
Com teus olhos verdes, cor da esperança,
E essa boca de mel, que dois lábios, lança,
Às delícias do amor, ao prazer do beijar.

O teu corpo no meu, com fervor, sem piedade,
O meu corpo no teu, sem temor, com maldade,
Em busca do êxtase, a caminho da explosão.
Tal qual animais famintos, sedentos, no cio,
Sem decência ou pudor, desprovidos de brio,
Atendendo ao instinto, saciando o tesão.

Só agora percebo o canalha que fui,
E que a maldade que fiz, somente contribui,
Para o desprezo que sentes, desde quando parti.
Confesso que hoje eu queria com certeza,
Deitar, e de ti lembrar, com bastante clareza,
E adormecer sorrindo, pensando em ti.

R.S. Furtado

domingo, 24 de maio de 2009

A ofensa e o perdão

A ofensa e o perdão
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Por impositivo autodireciomento psicológico, oriundo da mais profunda manifestação de nossa consciência interior, percebemos que os nossos erros se fixam em nós como desagradáveis entulhos mentais.

Ter o real conhecimento interior de haver errado, ofendido a alguém e se posicionar seriamente arrependido já se constitui um progressivo avanço na escala da constante aprendizagem humana.

Quem, ao ser atingido por uma proposital e infame atitude de ofensa, ao se posicionar de forma reflexiva e sensata, certamente conseguirá obter uma segura e proveitosa orientação íntima. Quando, ao se sentir atingido por algum gesto ou ato torpe, é necessário com resignação e coragem moral suportá-lo, usando naturalmente toda a nossa fortaleza interior.

O sentimento do perdão passa por um longo processo de profundas ilações e sérias maturações psicológicas. Nesses segmentos mentais se fundamentam as bases do nosso constante autoaperfeiçoamento moral e espiritual. Alguém que com muito bom senso, em total pureza de íntimo sentimento, já aprendeu a difícil arte de perdoar, consequentemente se elevou um pouco na progressiva escala da evolução humana.

Enfrentamos os nossos erros e adequadamente procurarmos resolvê-los é nos acrescermos em elevados níveis de novos e valiosos conhecimentos. Cada nova experiência nos induz – se elevada – ao enriquecimento moral de duradoura expressão. A autoaceitação dos nossos erros, numa atitude ética de alto nível, proporciona-nos a livre e pura manifestação da nossa consciência interior. E, sem dúvida, nos conduz a melhoria dos nossos conhecimentos.

Quem, com o negativo sentimento de ódio, se impulsiona a ofender, demonstra ter uma péssima formação moral e espiritual. E um enorme autoatraso social, mental e psicológico.

Todo aquele que, por instintiva e forte compunção interior, verdadeiramente perdoa, intimamente não guarda nenhum resquício da autodestruidora chama do ódio. Ao se perdoar a alguém, positivamente alcançamos em nós mesmos a mais pura harmonia e a mais completa paz.

Quem, com inteira isenção de ânimo perdoa, não se sente autoestimulado a alardear ou se vangloriar do indulto concedido a alguém. Quem, quando ofendido, vai à desforra, se nivela e, muitas vezes, se rebaixa além do nível de quem o ofendeu. Quem, vingando-se, lança-se a retaliações pessoais, em hipótese nenhuma tem condições morais para se autoatribuir melhor do que aquele que o ofendeu.

O sublime ato do perdão a quem nos tenha ofendido é sempre muito difícil. Mas, nos dá o altivo sentimento de que nos elevamos. E, de fraco que somos, nos tornamos fortes, reconhecendo os nossos erros, para melhor saber perdoar os erros dos outros. Perdoar é um processo de maturação da nossa consciência interior que precisamos cultivar e sempre usar em nossa vida.

Otacílio Negreiros Pimenta
In Memorian

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Vingativamente

VINGATIVAMENTE
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Durante aquele, amor pura loucura,
Que me consagraste fervorosamente.
Tu recusaste desdenhosamente,
Minhas cartas de amor, a antiga jura.

Cedo, porém, perdeste a formosura,
Resiste o orgulho fragorosamente.
É em balde que, com teu riso aparente,
Disfarçar queiras tua desventura.

Quando se esfuma a última esperança,
A triste realidade se descobre,
A ilusão foge e o desengano avança.

Hoje, um olhar se quer não te suplico,
Já de orgulho e desdém ficaste pobre,
De indiferença estou ficando rico.

R.S.Furtado

terça-feira, 19 de maio de 2009

O boato

O BOATO
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A conversa corre célebre pela cidade. Nas esquinas, nas lojas, em qualquer lugar. Em toda parte formam-se grupinhos de amigos para os costumeiros e, às vezes, escandalosos mexericos. Os comentários crescem, os pormenores passam a ter feições aparentemente verídicas. A partir daí, a patranha toma forma de algo quase irrefutável. Enfim, através dessa conversação infame, coadjuvada por um malabarismo de fortes efeitos psicológicos, a reputação de alguém está sendo impiedosamente estraçalhada. O que é verdadeiramente lamentável.

O fato insidioso, altamente difamatório, é que ao se investigar os rumores, procurando fielmente encontrar as origens da atoarda, dificilmente se encontrará quem a iniciou. Entretanto, se alguém deveras persistente teimasse em descobrir a procedência da torpe e destruidora balela, de imediato perder-se-ia no labirinto bem urdido da intrujice...

O inusitado em tudo isso é que pessoas consideradas sérias, muitas vezes, aceitam a chocalhice com absoluta naturalidade. Alguns, ainda acrescentam ao boato outros detalhes, procurando torná-lo mais verossímil. E assim, a endrômina passa a ter conotação de algo praticamente irrefutável. Com novos alentos difamatórios, o mexerico vai rolando de conversa em conversa, crescendo sempre e, aqui e ali, amealhando os aspectos mais degradantes. Somam-se um sorriso, um gesto, outro inocente detalhe, uma palavra ou um simples olhar e a imaginária trama é diligentemente urdida. O boato está feito, irremediavelmente criado e, sob todos os aspectos, altamente arrasador.

Pensemos, antes de falar sobre a pressuposta reputação de alguém, com marcante serenidade e elevada consciência. Não nos acomodemos diante de ferinas agressões que covardemente são assacadas contra os nossos semelhantes, independente de os conhecermos ou não. Não devemos aceitar os boatos, mesmo contra as pessoas com as quais, infelizmente, não temos um bom relacionamento.

Precisamos sempre nos manter vigilantes a fim de não nos envolvermos em conversa eivada de sentimentos de agressão, inverdades ou dúvidas. A ação torpe, vil, mesquinha e covarde do boato tem causado inúmeras infelicidades, pois, de forma propositada e abusiva, distorce o mais simples conceito de verdade.

Em nome do bem e do elevado bom senso, serenamente cuidemos de nossa vida e por todos os meios ao nosso dispor, evitemos prejudicar os outros. Procuremos não aceitar o boato que, normalmente, distorce a verdade dos fatos, prejudicando as pessoas, nossas amigas ou não.


Otacílio Negreiros Pimenta
In Memorian

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Felicidade

FELICIDADE
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Parti em busca da felicidade,
Em trilha ora tristonha, ora florida.
Tendo por norma sempre a honestidade,
E minha alma de achá-la, comedida.

Dia, outro dia, no crescer da idade,
O constante adiar, de lida em lida.
Escravo sempre da contrariedade,
Não atingi a meta prometida.

Felicidade sejas tu bendita,
Talvez tu sejas de champanha na taça,
Ou um carinho de mulher bonita.

No percurso que crente já trilhei,
Da existência que tão ligeira passa,
Se um dia fui feliz, inda não sei.

R.S.Furtado

terça-feira, 12 de maio de 2009

...Restos de esperança

...Restos de esperança
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Por razões profundamente íntimas, ela, por uma grande e desalentadora tristeza, é constantemente atormentada.

É algo latente, talvez, inseparável de sua alma. São grilhões aprisionando todos os seus pensamentos. Sente-se em angustia permanente. É uma aflição exclusivamente pessoal. Que, de certo modo, tem envolvimento com o seu nome: Isabel.

A razão desse nome: uma homenagem a quem assinou a “Lei Áurea”. Pensava sempre; “-escravos libertos... A expressão de liberdade há séculos aprisionada... Até a religião, ao lado dos senhores de escravos, era prazerosamente algoz... Uma infâmia para quem se dizia acreditar em DEUS”. Izabel, enquanto caminha sente os seus pensamentos se soltarem. Mas, cisma em sua autopercepção. Atentamente envolve-se com o que se passa com os escaninhos de sua mente... “- Escravos libertos, mas, só da permanente escravidão...” Quando finca-se no passado de sua raça, vê-se em situações desagradáveis. Dentro de si, esses sofrimentos estão presentes.

A sua tristeza tem um sentimento profundo de uma cruel e constante realidade.

Izabel, ainda menina com dez anos... Bernadete, a sua mãe, dentro do possível, estica seu cabelo. Completando o penteado, põe um laço vermelho. Ela, toda frajola, alegre, saltitante, vai à escola. Pelo caminho e na escola, à sua pessoa, as agressões se repetem. “Negrinha, esse laço vermelho é pra gente não notar que seu cabelo é feito de bosta de rolinha?” As risadas estouram e a humilhação velozmente penetra no âmago do seu ser. As lágrimas, como lâminas de fogo, descem abrindo regos amargos em sua face. Em contrapartida, com afinco dedica-se aos seus estudos. Aos poucos, ano após ano, galga todos os primeiros lugares do colégio. Além de estudiosa procura se dedicar as boas leituras, adquirindo ótimo conhecimento e esmerada educação.

O seu progresso educativo cresce com a admiração dos seus familiares e de outras pessoas. Finalmente chega a época do tão esperado vestibular. Área preferida: pedagogia. Dias de ansiedade, finalmente o resultado: passou em décimo lugar. Mas, não foi como pretendia, pois, aprendera a ser uma perfeccionista. Passado algum tempo, Izabel, intimamente consola-se.

Os anos, puxados por dias e noites, somam-se aos permanentes giros deste planeta. E, Izabel vê-se diante daquela auspiciosa ocasião: o recebimento do diploma. Ali, ao seu lado o noivo, pele escura como a sua, alegra-se quase ao êxtase.

Roberto, o seu nome, é empresário bem sucedido. Nesse dia, anunciaram as núpcias. A espera da data aprazada, os corações dos noivos batem uníssonos, como asa em harmonioso voo, unidas a um só pássaro. Chega o dia mais intensamente desejado aos dois. Tudo nesse dia parece ter brilho diferente. Casaram-se. Passaram-se os meses. Chega a primeira criança, sexo: feminino. Roberto, o pai, fica decepcionado. Vira-se para Izabel e diz: “- da próxima vez vamos caprichar para fazer um filho homem”... Porém, tempos depois, nasce outra menina. Roberto por demais ignorante, irrita-se.

As invisíveis teias do insondável destino trouxeram-lhes novas surpresas. Nasceram só meninas: cinco ao todo. Roberto desapareceu de casa para sempre. Surgem notícias ou boatos, coisas vagas, parecendo sem nexo. “-Roberto vendeu sua empresa e fugiu com a secretária loura... belíssima”.

Izabel, antes que os víveres acabassem, saiu a procura de emprego. Levando o seu currículo, visitou várias escolas. As negativas surgem, às vezes antes que ela justifique ter plena capacidade para a função. Ouve muitas e ferinas agressões verbais. “Não aceitamos negras, como professora, neste colégio. Só se for para serviço de limpeza, cujo lugar já está ocupado”.

Muitos dias se passaram e, inevitavelmente a fome se faz presente nos estômagos de Izabel e de suas cinco filhas. Chega o dia de Natal. Nem alimentos, nem presentes.

Na manhã seguinte, 25 de dezembro, Izabel, entre lágrimas ardentes, vê vindo na rua as suas filhas conduzindo caixas nas quais estão estampadas fotografias de bonecas... Convulsivamente chora, dizendo em desabafo íntimo: “- Para mim, são os restos de esperança”.


Otacílio Negreiros Pimenta
In Memorian

sábado, 9 de maio de 2009

Mãe

MÃE
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Aspiração que no coração lampeja,
O amor materno, se alcançada a tem.
A criatura que entronar deseja,
Os deveres santíssimos de mãe.

Quanta grandeza para o filho almeja,
Quantos cuidados aos seus sentidos vêm.
Quando ele dorme, levemente o beija,
Quando sorri, ela sorri também.

O amparo maternal ao filho estende;
Quando ele sofre, aflita ela soluça,
E roga ao céu que o sare e o céu atende.

Francamente, ela o seio desembuça.
E que doçura o seio seu desprende,
Quando ela sobre o berço debruça.


R.S.Furtado

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O passeio

O PASSEIO
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Ele esticou o braço direito, o qual lhe pareceu pesado demais. Girou-o em espaços invisíveis, encontrando só o vazio absoluto. A sua mão, por instantes, continuou tateando no escuro, mas percebeu haver tocado em algo macio e frio. Realmente o que desejava: um travesseiro. Rapidamente o colocou no lugar mais apropriado: a sua dolorida cabeça... Havia, dentro de si, uma premente necessidade: se libertar dos seus atrozes pensamentos... Eles, imbativelmente, o perseguem dias e noites. Uma marcação constante, sem cessar. As suas lembranças, inexoravelmente, movem-se dentro de si – escravizando-o permanentemente. Mas, são apenas os retalhos de recordações, às vezes, sem nexos, que não estabelecem os vínculos da realidade que precisa conhecer. Entre lençóis brancos e macios sobre a cama, tenta lentamente se virar. Mas, não consegue. Sua imaginação vagueia, tirando-o Dalí, levando-o a acontecimentos idos, muito distantes. Precisa encontrar, não no passado longínquo, mas de tempo recentíssimo, a nítida lembrança do que lhe aconteceu – antes de ser levado para ali. É urgente saber, a fim de esclarecer a razão de todo o seu tormento mental. A sua irritante preocupação transluz-se por todo o seu semblante. Nele, vê-se uma incontestável lástima. Em seu atribulado esforço mental – extenua-se. A sua cabeça dói, palpita incessantemente. O seu corpo queima em febre, parecendo possuir crepitantes chamas interiores.
De novo, lentamente, tenta mexer-se na cama, mas, não consegue. Quer dormir, sossegar... impossível. Em natural e ínfima disposição, ajeita-se um pouco. Pretende apagar da mente os seus confusos pensamentos. Quanto mais se empenha em retirá-los, ardilosamente eles se avivam em sua atormentada consciência. Há, em si, latente, uma pergunta agressiva, inquietadora... “- Por que estou aqui?” os seus pensamentos caminham rápidos, em torvelinhos, complicando-se, sem nada esclarecer. As horas, entretanto, parecem paradas, intermináveis. Em seu quarto de hospital, a escuridão prolonga-se indefinidamente. São momentos de angustiantes vazios, por demais tristes enfadonhos. Às vezes, surgem devaneios em embalos trágicos, enlouquecedores. É a manifestação de sua consciência preocupada. Mesmo desejando o sono, o estado de repouso não acontece. “- Por que essas imagens sem a completa nitidez?” Intimamente, assusta-se, pois, as mesmas parecem esconder algo terrível... Felizmente, chega a sua tela mental uma bela manhã de sol. Praia e mar... Ele e a sua família harmoniosamente reunida. O filho, Roberto, cautelosamente se aproxima: “- Pai! Mãe! Vamos tomar banho de mar?” A resposta veio imediata: “- Agora não”. O garoto levantou a cabeça louro-bronzeada, mostrando em sua fisionomia uma astuta expressão do seu forte olhar. Dentro de si caudalosas energias, querendo expressar toda a raiva da sua majestosa impaciência.
Posicionou-se, firmando bem os pés, e chutou um montículo de areia. Com o forte impacto, essa pequena elevação de decompôs em finíssimas partículas, movendo-se pelo vento em várias direções. Mas, o menino, logo em seguida voltou para perto dos seus pais. Um incontrolável impulso o fez falar, novamente: “- Mamãe, quem é esse cara que está bebendo com papai?”... “- É João, amigo do seu pai”. Em poucos instantes, Leandro, o pai, fala em tom imperativo: “- Gilda, leve o Roberto para o banho de mar... vê se ele não me enche”.
Naquele dominical encontro de amigos, copos cheios com bebidas alcoólicas, seguidamente, se encheram e se esvaziaram várias vezes. A conversa entre os dois tinham frutos suculentos de maledicências, mexendo com a reputação das pessoas que progrediram honestamente. A manhã e à tarde se passaram rapidamente, trazendo os aspectos do início da noite. A esposa Gilda e o filho Roberto se aproximam pra fazer mais um apelo: “- Leandro! É noite... vamos para a nossa casa?”. Na cidade, as luzes clareiam os caminhos dos homens, os quais, de há muito substituíram o seu andar pelo passo rápido das máquinas. Mais uma solicitação para, finalmente, Leandro concordar em atender. Bêbado, em cambaleios alcoólicos, segura a chave e se dirige ao carro.
Leandro, embriagado, dirigindo o seu carro julga que segue em completa segurança. Seus pensamentos estão em ritmos lentos, mas, a velocidade do seu carro aumenta cada vez mais... De repente, acontece o impacto. Violento. Terrível... Ouvem-se fortíssimos ruídos, sons metálicos e de vidros entrechocando-se com agressivas impetuosidades. Gritos lancinantes são ouvidos na noite. Angústias se afirmando em sentimentos de dores e desesperos. Frações de segundos rapidamente transformados em sofrida eternidade. Desmaios... O sangue fluindo, querendo esvaziar os corpos feridos. Vive-se o silêncio que parece paralisar tudo... Dias depois, Leandro retorna a sua consciência exterior. Logo, sente o ar enjoativo de quarto de hospital. Nesse ar fétido, misturados a curativos e remédios, tenta se mexer, desejando se levantar de corpo inteiro. Não consegue. Com muito esforço, lentamente, consegue suspender só o braço direito. Alcança o interruptor e... A luz se faz. Leandro, em profundo desespero, solta um grito de terror.
“- Onde estão as minhas pernas?... - O que fizeram com o meu braço esquerdo? –Eu quero a minha esposa e o meu filho, agora!!!” Como resposta só o constrangedor silêncio, feito com os fios da angústia e da completa desolação. Chorou compulsivamente, sem se aperceber do giro do tempo, a ausência de alguns dias e noites.
Pelos corredores do hospital, uma voz em alto brado gritava com a entonação do completo desespero e da nítida expressão de loucura. “- Por que estou aqui?... Eu, também, morri com a minha esposa e com o meu filho... Prendam o assassino, pelo amor de Deus!...”


Otacílio Negreiros Pimenta
In Memorian

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Fé, esperança e caridade

FÉ, ESPERANÇA E CARIDADE
http://horvallis.free.fr/photblog3/orlando21.jpg
Eram três anjos – e uma só mulher!

Quando a infância corria alegre, à toa,
Como a primeira flor que, na lagoa,
Sôbre o cristal das águas se revê,
Em minha infância refletiu-se a tua...
Beijei-te as mãos suaves, pequeninas,
Tinhas um palpitar de asas, divinas...
Eras – o anjo da fé!...

Depois eu te revi... na fronte branca,
Radiava entre pérolas mais franca
A altiva c’roa que a beleza trança!...
Sob os passos da diva triunfante,
Ardente, humilde, arremessei minh’alma,
Por ti sonhei – triunfador – a palma,
Ó – Anjo da Esperança... –

Hoje é o terceiro marco dessa história,
Calcinado aos relâmpagos da glória,
Descri do amor, zombei da eternidade!...
Ai, não! – celeste e peregrina Déa,
Por ti em rosas mudam-se os martírios!
Há no teu seio a maciez dos lírios...
Anjo da Caridade!...

Castro Alves
Curralinho, 20 de junho de 1870.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Nos tempos de outrora

Nos tempos de outrora
http://osabordaspalavras2.blogs.sapo.pt/arquivo/saudade.JPG

Se eu soubesse onde estás agora,
Juro-te, sairia sem atentar pra hora,
Correndo como louco, ao teu almejado encontro.
Te abraçaria e beijaria como antigamente,
Afogaria esta dor, imensa e persistente,
E dizimaria este meu terrível pranto.

E a saudade que me invade a todo o momento,
E que faz da minha vida um eterno tormento,
Mesmo assim, ameniza minha desilusão.
De jamais algum dia, eu ter-te de volta,
Seja sonho ou não, pra mim pouco importa,
O que importa é o alento pro meu coração.

Recordar os instantes juntinhos de ti,
E os prazeres do amor que contigo senti,
É tudo que quero, meu ser implora.
Pelos teus carinhos, beijos, devaneios,
Quando atendias todos os meus anseios,
Nos idos, passados, nos tempos de outrora.


R.S.Furtado
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