terça-feira, 12 de maio de 2009

...Restos de esperança

...Restos de esperança
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Por razões profundamente íntimas, ela, por uma grande e desalentadora tristeza, é constantemente atormentada.

É algo latente, talvez, inseparável de sua alma. São grilhões aprisionando todos os seus pensamentos. Sente-se em angustia permanente. É uma aflição exclusivamente pessoal. Que, de certo modo, tem envolvimento com o seu nome: Isabel.

A razão desse nome: uma homenagem a quem assinou a “Lei Áurea”. Pensava sempre; “-escravos libertos... A expressão de liberdade há séculos aprisionada... Até a religião, ao lado dos senhores de escravos, era prazerosamente algoz... Uma infâmia para quem se dizia acreditar em DEUS”. Izabel, enquanto caminha sente os seus pensamentos se soltarem. Mas, cisma em sua autopercepção. Atentamente envolve-se com o que se passa com os escaninhos de sua mente... “- Escravos libertos, mas, só da permanente escravidão...” Quando finca-se no passado de sua raça, vê-se em situações desagradáveis. Dentro de si, esses sofrimentos estão presentes.

A sua tristeza tem um sentimento profundo de uma cruel e constante realidade.

Izabel, ainda menina com dez anos... Bernadete, a sua mãe, dentro do possível, estica seu cabelo. Completando o penteado, põe um laço vermelho. Ela, toda frajola, alegre, saltitante, vai à escola. Pelo caminho e na escola, à sua pessoa, as agressões se repetem. “Negrinha, esse laço vermelho é pra gente não notar que seu cabelo é feito de bosta de rolinha?” As risadas estouram e a humilhação velozmente penetra no âmago do seu ser. As lágrimas, como lâminas de fogo, descem abrindo regos amargos em sua face. Em contrapartida, com afinco dedica-se aos seus estudos. Aos poucos, ano após ano, galga todos os primeiros lugares do colégio. Além de estudiosa procura se dedicar as boas leituras, adquirindo ótimo conhecimento e esmerada educação.

O seu progresso educativo cresce com a admiração dos seus familiares e de outras pessoas. Finalmente chega a época do tão esperado vestibular. Área preferida: pedagogia. Dias de ansiedade, finalmente o resultado: passou em décimo lugar. Mas, não foi como pretendia, pois, aprendera a ser uma perfeccionista. Passado algum tempo, Izabel, intimamente consola-se.

Os anos, puxados por dias e noites, somam-se aos permanentes giros deste planeta. E, Izabel vê-se diante daquela auspiciosa ocasião: o recebimento do diploma. Ali, ao seu lado o noivo, pele escura como a sua, alegra-se quase ao êxtase.

Roberto, o seu nome, é empresário bem sucedido. Nesse dia, anunciaram as núpcias. A espera da data aprazada, os corações dos noivos batem uníssonos, como asa em harmonioso voo, unidas a um só pássaro. Chega o dia mais intensamente desejado aos dois. Tudo nesse dia parece ter brilho diferente. Casaram-se. Passaram-se os meses. Chega a primeira criança, sexo: feminino. Roberto, o pai, fica decepcionado. Vira-se para Izabel e diz: “- da próxima vez vamos caprichar para fazer um filho homem”... Porém, tempos depois, nasce outra menina. Roberto por demais ignorante, irrita-se.

As invisíveis teias do insondável destino trouxeram-lhes novas surpresas. Nasceram só meninas: cinco ao todo. Roberto desapareceu de casa para sempre. Surgem notícias ou boatos, coisas vagas, parecendo sem nexo. “-Roberto vendeu sua empresa e fugiu com a secretária loura... belíssima”.

Izabel, antes que os víveres acabassem, saiu a procura de emprego. Levando o seu currículo, visitou várias escolas. As negativas surgem, às vezes antes que ela justifique ter plena capacidade para a função. Ouve muitas e ferinas agressões verbais. “Não aceitamos negras, como professora, neste colégio. Só se for para serviço de limpeza, cujo lugar já está ocupado”.

Muitos dias se passaram e, inevitavelmente a fome se faz presente nos estômagos de Izabel e de suas cinco filhas. Chega o dia de Natal. Nem alimentos, nem presentes.

Na manhã seguinte, 25 de dezembro, Izabel, entre lágrimas ardentes, vê vindo na rua as suas filhas conduzindo caixas nas quais estão estampadas fotografias de bonecas... Convulsivamente chora, dizendo em desabafo íntimo: “- Para mim, são os restos de esperança”.


Otacílio Negreiros Pimenta
In Memorian

3 comentários:

Laguardia disse...

Prezado Rosemildo

Obrigado pelo seu comentário no Blog Brasil Liberdade e Democracia.

Li o seu trabalho sobre o Proemp. Acho que iniciativas como esta sua é do que o Brasil precisa, mas como você mesmo viu, nossos governantes têm mais interesse em se manter no poder e se locupletar da coisa pública do que cuidar do bem estar do povo.

Como um deputado falou recentemente, eles estão se lixando para o povo.

Alguns comentários adicionais ao Proemp.

Como diretor de Recursos Humanos aposentado, posso dizer sem medo de errar que nosso grande problema em recrutamento e seleção é a qualidade da mão de obra disponível.

Enquanto há milhões de desempregados, há um grande número de vagas que não são preenchidas devido a baixa qualificação da mão de obra.

Criaram-se no Brasil milhares de faculdades que colocam no mercado de trabalho milhares de jovens que tiveram um péssimo preparo acadêmico sem a mínima condição de iniciar a trabalhar. Talvez por esta razão o programa Primeiro Emprego do governo Lula tenha fracassado (aliás, todos os programas sociais do governo Lula fracassaram até agora, mas isto é outra longa história)

O governo por sua vez, não promove a melhoria da qualidade de ensino. Estabelece cotas para alunos de escolas públicas terem acesso a universidade, cria o Prouni para financiar o pagamento das mensalidades escolares, mas melhorar o nível do ensino nem pensar.

O governo está incentivando a entrada de jovens nas universidades quando o mercado de trabalho está necessitando urgentemente de técnicos competentes.

Com a baixa qualificação da mão de obra as empresas investem em treinamento, o custo de produção fica mais caro e aí se entra no cículo que você bem conhece.

Aqui no Sul o comércio funciona de 09h00 as 18h00 sem interrupção. Provávelmente o funcionário cumpre uma jornada de 8 horas com intervalo de uma hora para refeição em regime de revezamento para que o comércio fique aberto.

Se a carga tributária fosse menor, provávelmente os produtos poderiam ser mais baratos, o que incentivaria o consumo e amentando a produção e o nível de emprego.

Impostos mais baixos fazendo com que aumente a produção e o consumo vão gerar uma maior arrecadação. Em rezumo é preferível arrecadar dois de 7 do que um de dez. Espero ter conseguido me fazer entender.

Com um governo mais honesto (aliás em 63 anos de vida nunca vi tanta corrupção num governo só), mais recurtsos seriam aplicados em saúde e educação pública, melhorando a qualidade da mão de obra e reduzindo mais os custos.

Este é um longo e apaixonante assunto e já tomei muito do seu espaço e de seu tempo.

Espero que você possa continuar comentando no Blog Brasil Liberdade e Democracia

Anne Danielle disse...

OI! Que bom que me visitou, porque assim pude conhecer seu blog e me emocionar com alguns textos que li :] E sobre você ter dito que eu sou exigente, é porque é difícil se dedicar tanto a pessoas e ter a consciência de que num breve instante elas podem nos retirar da vida delas. Não é estranho lembrar de quantos já abraçamos, ou trocamos confidências, e anos depois, ao nos encontrarmos,apenas darmos um "oi" ou um aceno qualquer? Eu sei que a vida continua, que pessoas vem e vão, e ísso não há como evitar. Mas há como evitar que isso aconteça por motivos fúteis, por razões de orgulho exacerbado ou por uma simples indiferença. Por isso eu escrevi o texto: para aquelas pessoas que simplesmente descartam outras de suas vidas, como se fosse um convidado que passa um fim de semana na casa de praia e depois vai embora... :/

:) Adorei te conhecer! :)
bjooooooooo

Avassaladora disse...

A gente, vai, volta, desencontra encontra...
Voltei instigada por um comentário em algum blog...
E me deparo com um texto forte... ?Carregado de emoções!


É sempre tão bom essa troca que há aqui, nesse mundo virtual!


Beijos!

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