quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Ao Papai Noel.

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Ao Papai Noel.

Sabe Papai Noel, eu não ia escrever não. Sabe por quê? Porque eu tava com raiva do senhor. É! Tava mesmo. Eu ainda estou, mas, só um tiquito de nada. Todo ano eu esperava um presente e nunca ganhava nada. O último ano, como eu não tinha sapato, – disseram que o senhor só botava o presente no sapato – aí eu botei o sapato velho de pai. Foi um sapato que ele achou no lixo. É que pai vive catando lixo. No dia que os carros passam, ele sai bem cedinho, que é pra catar o lixo antes do carro passar. O povo sempre bota o lixo pra fora de noite porque o carro não tem hora pra passar no outro dia. Mãe disse que o senhor não botou o presente, porque o sapato tava furado e fedendo ao chulé de pai. Mãe num trabalha por causa da minha irmã pixitita, mas ela ajuda pai a separar o lixo. Ela só sai de tarde, porque vai na casa duns ricos que moram aqui perto. Tem uma empregada lá, que junta os restos de comida que ficam nos pratos, bota numa lata, e dá pra mãe trazer pra gente comer. Sabe Papai Noel, teve um ano que eu tava com tanta raiva, que eu desejei que desse um vento bem forte, e derrubasse a tua carrocinha com os presentes aqui bem pertinho do viaduto. Ah! Eu nem falei! É que a gente mora embaixo dum viaduto no caminho que vai pra cidade. Será que não dá pra o senhor trazer uns presentinhos aqui pra gente. Quando eu digo pra gente, é porque aqui embaixo do viaduto tem outras famílias e tem muitos meninos. O senhor pode fazer o seguinte: ao invés de dar os brinquedos novos aos ricos, o senhor troca pelos velhos, e guarda pra trazer pra gente. Ah! Se o senhor trouxer os presentes, veja se dá pra trazer pão também, a gente aqui, sempre vai dormir com fome, mas, como vai ser no Natal, a gente poderia comer, pelo menos, um pedaço de pão.

Eu acho que vou parar por aqui. Quem está escrevendo esta carta é uma amiga minha que trabalha aqui num posto de saúde. Como agora não tem médico, nem medicamento, nem equipamento, também não tem ninguém pra ela atender. Aí, eu falei pra ela que se eu soubesse escrever, eu escreveria uma carta para o Papai Noel pra pedir um presente. Foi quando ela pegou uma folha do caderno dela e mandou que eu falasse o que eu gostaria de lhe dizer. Pois é Papai Noel, já estou com nove anos e ainda não sei ler nem escrever. Todo dia mãe me manda rezar pra ver se as coisas melhoram. Reza meu filho! Reza e pede a DEUS, pra ver se os homens deixam de roubar, criam vergonha na cara, e melhoram a situação do povo. A escola fica muito longe daqui do viaduto, também, eu não tenho nem lápis, nem caderno, e nem também, roupa e sapato. Sim! Ia esquecendo! Tem também a minha irmã pixitita. Quando ela está dormindo, eu também ajudo pai a separar o lixo e quando ela está acordada, eu tenho que tomar conta dela quando mãe ajuda pai ou precisa sair pra pegar os restos de comida ou a água numa pracinha aqui perto.

Será que o senhor não vai esquecer? Olha! Eu não vou mandar um beijo pra o senhor, porque eu não escovei os dentes. Eu nem tenho escova! Sabe como é pobre né?

Um abraço,

Palito (esse é meu apelido porque sou muito magro, e também, porque pobre não tem nome).

O Natal chegou, e com ele as festas, as alegrias, e acenderam-se as esperanças de muitos, quanto à obtenção de dias melhores. Aproveitamos a oportunidade, para agradecer a todos, indistintamente, pelo apoio e pelo carinho dedicado ao nosso Arte & Emoções, não só aos nossos queridos e leais amigos seguidores, como também, àqueles que nos visitaram durante o ano de 2009, pois temos certeza de que sem esse apoio jamais teríamos chegado aonde chegamos nesses treze meses de vida. Não sei se será pedir demais, mas, gostaríamos de continuar contando com esse valiosíssimo apoio, por tratar-se do nosso principal fomento e a razão maior da nossa existência. Aproveitamos também para apresentar nossas desculpas, caso tenhamos, mesmo inadvertidamente, cometido algum erro. A partir de hoje, faremos uma pequena pausa para descanso, repor as energias e concatenar as ideias, e somente retornaremos em 2010, ocasião em que atualizaremos as nossas visitas.

Pedimos ao nosso DEUS misericordioso que cubra com seu manto todo o universo, abençoe e proporcione a todos os viventes de um modo geral, um Feliz Natal e que o ano de 2010, seja de muita paz, amor, saúde e felicidades, e que o homem adote como prioridades, a compreensão, a harmonia e a solidariedade para com o seu semelhante, e assim, possamos ter um mundo mais justo e mais humano.

Muitíssimo obrigado e até 2010.

R.S. Furtado.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Menina sedução.

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MENINA SEDUÇÃO

Menina gostosa, tua boca,
É uma coisa louca,
Bem legal de beijar.
Menina, teu corpo embalado,
Neste teu requebrado,
Só me faz desejar.

Menina, teus olhos azulados,
Só lembram pecados,
Neste teu modo de olhar.
Menina, teus cabelos doirados,
Sedosos e bem cuidados,
Convidam-me a te amar.

Menina, tuas pernas alongadas,
Tão lindas e bem moldadas,
Agitam-me o coração.
Menina, tu és minha luz,
Teu corpo me seduz,
És minha excitação.

R.S. Furtado.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Nós.

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NÓS

Eu e tu: a existência repartida
por duas almas; duas almas numa
só existência. Tu e eu: ávida
de duas vidas que uma só resuma.

Vida de dois, em cada uma vivida,
vida de um só vivida em dois; em suma:
a essência unida à essência, sem que alguma
perca o ser una, sendo a outra unida.

Duplo egoísmo altruísta, a cujo enleio
no próprio coração cada qual sente
a chama que em si nutre o incêndio alheio.

O mistério do amor onipotente,
que eternamente eu viva no teu seio,
e vivas no meu seio eternamente.

Silva Ramos.

No Recife nasceu José Júlio da Silva Ramos, em 06 de março de 1853, filho de pai brasileiro (médico formado em Coimbra) e mãe portuguesa. Feitos os preparatórios, foi estudar leis em Coimbra, onde chegou em 1869, depois de breve estagio na Escola Acadêmica de Lisboa. Conheceu durante sua estada futuros grandes vultos literários, como Gonçalves Crespo, João de Deus, Guerra Junqueiro e outros. De volta ao Brasil (1882), foi inspetor escolar (1890), diretor do Ginásio Fluminense, em Petrópolis, e professor de português no Colégio Pedro II (1903). Colaborou em A Semana, sob o pseudônimo de Júlio Valmor, na Revista Brasileira e na Revista da Academia. Pertencia ao sodalício, como fundador. Faleceu em 16 de dezembro de 1930.

Fonte: “Poesia Parnasiana” Antologia – Edições Melhoramentos – 1967.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Argumento de defesa.

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ARGUMENTO DE DEFESA

Disse alguém, por maldade ou por intriga,
que eu de Vossa Excelência mal dissera;
que tinha amantes, que era “fácil”, que era
da virtude doméstica, inimiga.

Maldito seja o cérebro que gera
infâmias tais que, em cólera, maldigo!
Se eu disse tal, que tenha por castigo
o beijo de uma sogra ou de outra fera!

Ponho a mão espalmada na consciência
e ela, senhora, impávida, protesta
contra essa intriga da maledicência!

Indague a amigos meus; qualquer atesta
que eu acho e sempre achei Vossa Excelência
feia demais para não ser honesta...

Bastos Tigre.

Manoel Bastos Tigre nasceu no Recife em 12 de março de 1882 e estudou no Colégio Diocesano de Olinda, onde compôs seus primeiros versos e criou um jornalzinho humorístico, O Vigia. Freqüentou a Escola de Engenharia de seu estado, da qual se transferiu para o Rio de Janeiro: diplomou-se em 1906. Esteve na Europa, nos Estados Unidos; de regresso, exerceu engenharia e depois se fez bibliotecário, no Museu Nacional e na Universidade do Brasil. Ao mesmo tempo, trabalhou na imprensa (desde 1902 no Correio da Manhã), no rádio, em publicidade. Faleceu no Rio de Janeiro, em 02 de agosto de 1957.

Fonte: “Poesia Parnasiana-Antologia” Edições Melhoramentos – 1967.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Soneto.

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SONETO

Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sôbre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!

Álvares de Azevedo.
(1831-1852)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Escurinha.

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ESCURINHA

Escurinha, tu és tão linda,
Tu és a menina,
Do meu coração.
Escurinha, teu corpo moreno,
É mais que veneno,
Mata-me de paixão.

Teu corpo bonito e charmoso,
É mais que gostoso,
Gosto tanto de ver.
Escurinha, esse teu rebolado,
Deixa-me arrepiado,
Mata-me de prazer.

Os teus cabelos tão lindos,
Pelos ombros caindo,
Olho com tanta emoção.
Teus lábios belos e atraentes,
Beijo, porque são ardentes,
Escurinha, tu és meu tesão.

Tuas pernas tão bem torneadas,
Por Deus abençoadas,
Faz-me estremecer.
Como uma rainha te vejo,
Por ti, morro de desejo,
Escurinha, quero amar e ter.

Escurinha, és a flor do pecado,
Esse teu rebolado,
Faz-me enlouquecer.
Escurinha, és a flor do pecado,
Com esse teu rebolado,
Vou morrer de prazer.

R.S. Furtado.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Cigarra morta.

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A CIGARRA MORTA

Ontem, Cigarra, quando veio a aurora,
acordei a vibrar com a tua vinda.
A tua voz tinha, de espaço fora,
notas tão claras que eu a escuto ainda.

Glorificando a luz consoladora,
cantaste, e enfim tua cantiga é finda.
Tenho nas minhas mãos, inerte agora,
teu corpo cor de mel, Cigarra linda.

Foste feliz, porque te deram esta
garganta de ouro. Assim, de palma em palma,
passou, num sonho, a tua Vida honesta...

Vendo-te, os meus sentidos se levantam,
esperando a cantiga da tua alma,
que as almas das Cigarras também cantam...

Olegário Mariano
(1889-1958)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Suave Mari Magno.

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“SUAVE MARI MAGNO”

Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão.

Arfava, espumava e ria,
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso,

Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.

Machado de Assis.
Do livro “Ocidentais”.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Sonetos.

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SONETOS


Baixei veloz, que ao úmido elemento
A voz no nauta experto afoito entrega,
Demora o curso teu, perto navega
Da terra onde me fica o pensamento!


Enquanto vais cortando o salso argento,
Desta praia feliz não se desprega
(Meus olhos, não, que amargo pranto os rega)
Minha alma, sim, e o amor que é meu tormento.


Baixei, que vais fugindo despiedado,
Sem temor dos contrastes da procela,
Volta ao menos, que vais tão apressado.


Encontre-a eu gentil, mimosa e bela!
E o pranto qu’ora verto amargurado,
Possa eu verter então nos lábios dela!


Gonçalves Dias.
Rio de Janeiro- 17 de junho de 1847.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Um Glutão.

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UM GLUTÃO

Venha assada a titela de um peru,
Uma galinha ao pardo ou um capão.
Uma fritada de ostra ou sururu,
E umas dez costeletas de leitão.

Uma terrina meia de feijão,
Uma garrafa da ideal pitu.
Uma salada, arroz ou macarrão,
E três pires de doce de caju.

Ele espera esse dia e, a espera-lo,
Quando sente algum cheiro de panela,
Seu apetite passa a ser um entalo...

Tal “banquete” isso é coisa de futuro...
Que no presente nem sempre em sua goela,
Passa café aguado com pão duro.

R.S. Furtado.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Modinha do empregado de banco.


MODINHA DO EMPREGADO DE BANCO

Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como o homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.

Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel a fortuna dos outros.
Se eu tivesse esses contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com esses contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.

Também se o Diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.

Murilo Mendes.
(1901-1975)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Auto-retrato.



AUTO-RETRATO

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico

Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação do espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

Manuel Bandeira.
(1886-1968)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Descobrimento.

[mário.jpg]


DESCOBRIMENTO

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da Rua Lopes Chaves
De supetão senti um frúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.


Não vê que me lembrei que lá do norte, meu Deus! muito longe de mim.
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.


Esse homem é brasileiro que nem eu.


Mário de Andrade.
(1893-1945)

domingo, 6 de dezembro de 2009

Leviana.

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LEVIANA

Mandei-lhe um beijo,
Quando alguém me disse que lhe encontrou.
Muito triste e abatida,
Mal tratada e mal vestida,
Que quase não lhe notou.

Mandei-lhe um beijo,
Quando alguém me disse que você falou.
Que estava arrependida,
E uma vida sem guarida,
Foi tudo que lhe restou.

Mandei-lhe um beijo,
Quando alguém me disse que você chorou.
Lamentando a solidão,
E que o seu coração,
Já não mais suportava a dor.

Vai!
Sai da minha vida, me deixa em paz,
O que você me fez, jamais se faz,
Somente magoou meu coração.
Vai!
O que você me fez já é demais,
Traindo-me com outro, e qualquer rapaz,
Agora você vem me pedir perdão.

É tarde.
Eu já coloquei outra em seu lugar,
Alguém em que eu possa confiar,
Para aliviar os sofrimentos meus.
É tarde.
Segue a sua vida de mundana,
Vivendo e agindo como leviana,
Pois só quem pode perdoar é Deus.

R.S. Furtado

sábado, 5 de dezembro de 2009

A rosa de Hiroxima.

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A ROSA DE HIROXIMA


Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.


Vinicius de Moraes
(1913-1980)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Epigrama.

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EPIGRAMA

Vendo um Doutor seu doente
Quase em termos de morrer;
Disse aflito: Houve mudança
No remédio, ou no comer.

Tal não houve, meu Doutor,
(O doente lhe voltou)
Eu se morro é porque fiz
Tudo quanto o senhor mandou.

Gonçalves Magalhães.
(1811-1882)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Cultuando.

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CULTUANDO

Amo-a tanto! E, que saiba jamais quero,
Da existência o amor, que como um culto.
Quando comigo, avaramente oculto,
Sem ânsia nem paixão, puro e sincero.

Amo-a e não quero que ela me ame. Exulto,
Em decantar um amor que considero.
Um ídolo sagrado, que venero,
Sem me importar se a alguém servir de insulto.

Vendo-a, vejo uma imagem resplendente.
E sinto o trepidar de minha lira,
Tangida por minha alma reverente.

Firme, esse amor assim mantendo venho.
- Por crença, bastam os versos que me inspiram,
- E, por ventura os beijos que não tenho.

R.S. Furtado.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Mulher proletária.

[Jorge+de+lima+mulher+e+família+pobre.jpg]
MULHER PROLETÁRIA

Mulher proletária – única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos) tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.

Jorge de Lima.
(1895-1953)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A sociedade e o terror.

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A SOCIEDADE E O TERROR

Sabemos que há vários tipos de medo. Uns com existências visíveis, outros não. Há alguns, às vezes como sequelas, em sutis e profundas manifestações psicológicas. Esses, em latentes vibrações, são um tormento para algumas pessoas. Quem é vítima desse sofrimento, torna-se infeliz possuidor do medo implantado insidiosamente em sua consciência. Após a real ocorrência, difícil é se livrar do constante assédio psicológico das vividas cenas de horror. Talvez, os piores medos sejam os reais, de conseqüências físicas e morais. Especialmente aqueles que deixam as pessoas com o maior sentimento de pavor, como se algo parecido pudesse acontecer a qualquer momento. Dentro de si vibra uma constante sensação de pavor, como um sinal de permanente alerta. O temor que mais atormenta o brasileiro, acentuadamente nos grandes centros urbanos, é o de ser assaltado ou sequestrado. Infelizmente, isso já está acontecendo em cidades de porte médio e em algumas menores.

A impunidade está incentivando e generalizando a tal ponto (ou além) que, em alguns casos, ser assaltante, traficante de drogas, sequestrador ou agenciador da prostituição infantil, é uma rendosa profissão, tendo por base, pessoas muito bem preparadas para o crime. Em alguns casos, num verdadeiro contra senso, há maus policiais que se envolvem com assaltos, drogas, prostituição e sequestro. Esses péssimos elementos vivem em ações paralelas, numa dualidade de procedimentos que contrariam o bom senso e fere a dignidade humana. Eles são policiais transvertidos de bandidos que usam de suas prerrogativas, fardas e armas, em sentido contrário as suas normais e obrigações. O nosso povo, através de impostos altíssimos, sofridamente paga por sua segurança e, em troca, recebe criminosas agressões. Essa imoral verdade, uma anomalia em nosso contexto social, precisa o mais rápido possível, ser totalmente eliminada. Os culpados devem ser julgados e, através de rigoroso processo judicial, condenados as penalidades que merecem.

A maioria desses crimes, com todos os requintes de perversidades, tem um fortíssimo ingrediente: as drogas. Nas atormentadoras cenas dos audaciosos crimes, há, sem dúvida, os psicotrópicos e alucinógenos de última geração. Sem o uso das drogas, esses bandidos, alguns adultos, outros ainda crianças, não seriam tão audaciosos, sanguinários e brutais assassinos. Por trás dessas violentas ações estão os traficantes de drogas muito bem organizados. Esse mau comportamento só será erradicado, no Brasil, e neste planeta, quando as drogas estiverem sob controle – servindo a objetivos edificantes. O lado positivo das drogas deve servir a outros propósitos mais elevados, com aplicações na área médica, etc. Pesquisas sérias deverão ser feitas, alcançando as suas reais e positivas finalidades.

A tranquilidade plena do ser humano é algo quase impossível de existir, de se conseguir, de se viver. Mas, quando se quer verdadeiramente, nada é totalmente impossível. Autodirecionando-se firmemente a fim de alcançar o que se deseja, é possível atingirmos as nossas metas. Evidentemente, com a adoção inabalável de métodos adequados de combate as drogas, a prostituição infantil, aos assaltos e aos sequestros, poderemos conseguir a tranquilidade necessária. Antes que isso aconteça realmente, a nossa sociedade é a maior de todas as vitimas. Diante da escalada da violência e da perpetração de hediondos crimes, as instituições formadoras de opinião precisam dar a sua direta e irrestrita contribuição a fim de serem erradicadas essas atrocidades. Essas instituições, de todos os posicionamentos ideológicos e religiosos, precisam se envolver no sentido de que os problemas, aqui mencionados, sejam resolvidos. Se isso fosse feito com rigor, num futuro próximo os caminhos das drogas, da prostituição infantil, dos assaltos, dos sequestros e dos crimes mais nefandos, seriam bem mais estreitos. E, certamente, um dia, esses caminhos estariam extintos.

Otacílio Negreiros Pimenta
In Memorian

domingo, 29 de novembro de 2009

Soneto da separação.

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SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente o riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.


De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do movimento imóvel fez-se o drama.


De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.


Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


Vinicius de Moraes.
(1913-1980)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Recusa.

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RECUSA

Do silêncio ou do cárcere cativo,
Contando um dissabor a cada instante.
Não tem meu coração bater vibrante,
Não sei se morto estou ou se estou vivo.

Para este meu viver tão purgativo.
A tepidez deste teu ronco arfante,
Teu carinho e teu beijo provocante,
Não trarão alegrias e lenitivo.

Sem tua voz eu ouvir, ou se eu ouvisse,
Tuas palavras doces, sonorosas,
Cheias de encanto e cheias de meiguice.

Surgiram-me raios de esperança.
Prazer, claras manhãs, tardes de rosas,
Porque de amar meu coração não cansa.

R.S. Furtado.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Revelações.

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REVELAÇÕES

Recebi da amiga Maria Madalena o desafio de completar estas cinco frases.

Eu Já...
Eu nunca...
Eu sei...
Eu quero...
Eu sonho...

Estas são minhas respostas:

Eu já não suporto mais um mundo tão vil, com tanta maldade.
Eu nunca pensei participar de uma sociedade tão rude e decadente.
Eu sei que só DEUS o consertará, com a sua infinita bondade.
Eu quero e peço uma solução a ELE, que é tão solícito e complacente.
Eu sonho com a certeza desse sonho se transformar em realidade.
Eu vou brindar com a ascensão e a felicidade de todo o ser vivente.

Ob: A sexta frase é cortesia da casa.

As regras são designar cinco blogs, que devem indicar de quem receberam o convite.

Livinha do blog: http://livinha27.blogspot.com/
Fátima do blog: http://vivereafinaroinstrumento.blogspot.com/
Andresa do blog: http://coisinhasdebibiba.blogspot.com/
Helô do blog: http://felina-mulher.blogspot.com/
Lili do blog: http://africaempoesia.blogspot.com/

Gostaríamos de deixar bem claro que o fato de termos indicado somente cinco amigos, deu-se ao fato da exigência da regra, porém, a mesma regra, não nos impede de estendermos o desafio a todos os nossos amigos seguidores, bem como, a todos aqueles que nos visitam e estão sempre acompanhando o nosso trabalho, o que muito nos honra.

Beijos,

Furtado.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Poema do nadador.

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POEMA DO NADADOR

A água é falsa, a água é boa.
Nada, nadador!
A água é mansa, a água é doida,
aqui é fria, ali é morna,
a água é fêmea.
Nada, nadador!
A água sobe, a água desce,
a água é mansa, a água é doida.
Nada, nadador!
A água te lambe, a água te abraça
a água te leva, a água te mata.
Nada, nadador!
Senão, que restará de ti, nadador?
Nada nadador.

Jorge de Lima.
(1895-1953)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Retrato.

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RETRATO


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil
– Em que espelho ficou perdida
a minha face.


Cecília Meireles.
(1901-1964)

domingo, 22 de novembro de 2009

Incompreensão.

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INCOMPREENSÃO

O senhor nos legou com suprema bondade,
Este mundo ideal, generoso e criador.
Indicando o dever de honradez e lealdade,
Ao cultivo do bem, ao cultivo do amor.

No entanto, só campeia impudor e maldade,
Manchando a candura espalhando terror.
Em lugar da justiça e da nobre verdade, 
Acolhe-se mentira e nega-se o valor.

Acata-se a violência, acusa-se o que é terno.
Desdenha-se a moral, a descrença persiste,
Pois só incompreensão a humanidade ostenta,

Este mundo ideal transforma-se em inferno.
Hoje um edil não é porque a verdade é triste,
“Tudo o que o céu despreza a terra se avarenta”.

R.S. Furtado.

sábado, 21 de novembro de 2009

Irene no céu.

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IRENE NO CÉU


Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.


Imagino Irene entrando no céu:
– Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
– Entra Irene. Você não precisa pedir licença.


Manuel Bandeira.
(1886-1968)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Na fazenda.

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NA FAZENDA

Dorme ainda a fazenda: ao longo da varanda
Repousa o boiadeiro em couros estendidos;
Desponta no horizonte aurora froixa e branda,
No meio do terreiro o cão solta ganidos!

Mas nisso de repente escutam-se alaridos,
Dum sino que desperta estruge a voz nefanda;
Começam a soar conversas e balidos
E a ordem de rigor que rude aos negros manda!

Chegou o começar das lides e trabalhos,
Ressoam do feitor os brados e os ralhos:
A boiada desfila à porta do curral.

Os pretos esfregando os olhos sonolentos
Levando samburás lá vão a passos lentos
Da porta da senzala ao denso cafezal!

Afonso Celso.
(1860-1938)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sonetos.

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SONETOS

Doce Amor – a sorrir-se brandamente
Em sonhos me falou com tal brandura,
Que eu só de o escutar vida mais pura
Senti coar-me n’alma fundamente.

Depois tornou-se o tredo fogo ardente
Que o instante, o ano, a vida me tortura.
Bem longe de gozar tanta ventura,
Cresta-me o rosto agora o pranto quente.

Homem, se homem és no sentimento,
Não zombes, não, de mim tão desditosa,
Nem seja o teu alívio o meu tormento.

Deixa-me a teus pés cair chorosa,
Soltar no extremo pranto o extremo alento,
Que eu morrendo a teus pés serei ditosa.

Gonçalves Dias.
Rio de Janeiro, 6 de novembro de 1847.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Maria.

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MARIA

Onde vais à tardezinha
Mucama tão bonitinha,
Morena flor do sertão?
A grama um beijo te furta
Por baixo da saia curta,
Que a perna te esconde em vão...

Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com mêdo de ti!...
Levas hoje algum segrêdo...
Pois te voltaste com mêdo
Ao grito do bem-te-vi.

Serão amôres deveras?
Ah! Quem dessas primaveras
Pudesse a flor apanhar!
E contigo, ao tom d’aragem,
Sonhar na rêde selvagem...
À sombra do azul palmar!

Bem feliz quem na viola
Te ouvisse a moda espanhola
Da tua ao frouxo clarão...
Com a luz dos astros – por círios,
Por leito – um leito de lírios...
E por tenda a solidão!

Castro Alves
(1847-1871)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Primeiro aniversário.

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PRIMEIRO ANIVERSÁRIO
AOS NOSSOS QUERIDOS AMIGOS!


Exatamente no dia 16 de novembro de 2008, o Arte & Emoções fez a sua primeira postagem com o título TABAGISMO: VAMOS LARGAR? Apresentando um método que criei, com a finalidade de deixar o vício do cigarro. Como o resultado foi positivo, pois larguei o vício que já perdurava por cinquenta e hum anos, resolvi que deveria torná-lo público, pois, quem sabe, alguém poderia querer utilizá-lo e tentar lograr o mesmo êxito que eu. Daí continuei postando algumas baboseiras que escrevo, inclusive, um programa para criação de empregos, enviado na época, para o nosso presidente LULA e para o senador Paulo Paim e postado com o título PROEMP E O DESEMPREGO. Postei também alguns valiosos artigos de autoria de um grande e inesquecível amigo, Otacílio Negreiros Pimenta, que DEUS o abençoe e o guarde e, visando divulgar grandes obras de grandiosos nomes da “Literatura Brasileira” como: Castro Alves, Machado de Assis, Artur Azevedo, Gonçalves Crespo, Luís Delfino, Gregório de Matos, Alberto de Oliveira, e tantos outros, resolvi publicá-las, pois, com certeza muita gente não as conhece.
Portanto, hoje o Arte & Emoções está completando o seu primeiro ano de existência e, se chegou aonde chegou, foi graças a DEUS e a todos aqueles que, seguidores ou não, nos visitam e nos prestigiam através dos seus comentários com belas palavras de apoio, que somente nos estimulam a continuar.
Queremos aqui, agradecer a todos indistintamente e dizer que o sucesso do Arte & Emoções deveu-se a atenção e ao apoio que têm dado ao nosso trabalho e, portanto, esta comemoração é extensiva a todos.

MUITO OBRIGADO DE CORAÇÃO!

Beijos nos corações.

Rosemildo Sales Furtado.

sábado, 14 de novembro de 2009

Luz entre sombras.

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LUZ ENTRE SOMBRAS

É noite medonha e escura,
Muda como o pensamento,
Uma só no firmamento
Trêmula estrela fulgura.

Fala aos ecos da espessura
A chorosa harpa do vento,
E num canto sonolento
Entre as árvores murmura.

Noite que assombra a memória,
Noite que os medos convida
Erma, triste, merencória.

No entanto... minh’alma olvida
Dor que se transforma em glória,
Morte que se rompe em vida.

Machado de Assis.
Do livro Falenas – (1870).

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O bêbado.

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O BÊBADO

A vista turva, o crânio atordoado,
Nada o entristece nem tampouco o encanta.
Tomba, tropeça, cai e se levanta,
Vai cair mais distante, do outro lado.

Julga que a bebedeira. O desgraçado,
Os seus desgostos trágicos espantam.
Esbraveja, sorri, às vezes canta,
Talvez algum lampejo do passado.

Vive, e, não sabe ao certo se tem alma,
Fogem-lhe os dias, e ele jamais sente,
Ruir-lhe do vício o cansaço tão voraz.

Se acaso, o sono, o cérebro lhe acalma,
Ele após despertar, pensa somente,
Em ir para a taverna beber mais.

R.S. Furtado.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Aos caramurus da Bahia.

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AOS CARAMURUS DA BAHIA

Um calção de pindoba, a meia zorra,
camisa de urucu, mantéu de arara,
em lugar de cotó, arco e taquara,
penacho de guarás, em vez de gorra.

Furado o beiço, sem temer que morra
o pai que lho envazou cuma titara,
porém a mãe a pedra lhe aplicara
por reprimir-lhe o sangue que não corra.

Alarve sem razão, bruto sem fé,
sem mais eis que a do gôsto, quando erra,
de Paiaiá tornou-se em abaité.

Não sei onde acabou, ou em que guerra:
só sei que dêste Adão de Massapé
procedem os fidalgos dessa terra.

Gregório de Matos.
(1633-1696)
Poesia Barrôca.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Flor da mocidade.

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FLOR DA MOCIDADE

Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor,
Eu conheço a mais bela flor,
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste,
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val,
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.

Machado de Assis.
Do livro Falenas-(1870).

domingo, 8 de novembro de 2009

Pouco importa.

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POUCO IMPORTA

Pouco importa que agora chova,
Ou também que se espalhe o sol.
Pouco importa que a terra se mova,
Ou que se mantenha num ponto só.

Pouco importa se a lua é cheia,
Crescente, nova, ou minguante.
Pouco importa se está muito feia,
Ou se está linda e brilhante.

Pouco importa a hora do dia,
Se tarde, noite, ou madrugada.
O mais importante é a companhia,
Que ora me faz, minha bem amada.

Pouco importa se está muito calor,
Ou mesmo frio, ou gelado lá fora.
O que importa é este lindo amor,
Que aqui dentro curtimos agora.

R.S. Furtado.

sábado, 7 de novembro de 2009

Das cousas do mundo.

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RESPOSTA A INSTABILIDADE DAS COUSAS DO MUNDO

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
depois da Luz, se segue a noite escura,
em tristes sombras morre a formosura,
em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na luz falta a firmeza,
na formosura não se dê constância,
e na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
e tem qualquer dos bens por natureza
a firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos.
(1633-1696)
Poesia Barrôca

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Miserável.

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MISERÁVEL

O noivo, como noivo, é repugnante:
materialão, estúpido, chorudo,
arrotando, a propósito de tudo,
o ser comendador e negociante.

Tem a viuvinha, a noiva interessante,
todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
alabastro, marfim, coral, veludo,
azeviche, safira e tutti quanti.

Da misteriosa alcova a porta geme,
o noivo dorme num lençol envolto...
Entra a viuvinha, a noiva... Oh, céu, contém-me!

Ela deita-se... espera... Qual! Revôlto,
o leito estala... Ela suspira... freme...
e o miserável dorme a sono sôlto!...

Artur Azevedo.
(1855-1908)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

As fases da vida.

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NAS FASES DA VIDA

Quando o desabrochar da vida, temos,
É só pelo futuro que esperamos.
Gozamos com devoção o que colhemos,
No presente, e no passado não ligamos.

Chegam tempos, porém, que compreendemos,
Quanto nós, a nós mesmos enganamos;
Se a vida é bela, é quando florescemos,
Não na velhice, que murchando estamos.

E o viver passa a ser abismo escuro,
Então, nós entendemos que o futuro,
Nada mais é que um sonho irrealizado.

E o que nos resta, é confortadamente,
Suavizarmos as mágoas do presente,
Com a cândida lembrança do passado.

R.S. Furtado.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Finados.

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FINADOS

Mãe,
hoje é dia de finados.

Não, não é remorso. Neste momento
leio nos jornais que milhares de criaturas
se atropelam nos cemitérios
levando flores a seus mortos.

Não vou lá, mãe. Não gosto de cemitério,
lá não sei te encontrar,
nem me sinto em paz,
perdido entre multidões...
E sofro de imaginar-te, imóvel, prisioneira
num gavetão de concreto empilhado num muro
branco, de lamentações...

Não, mãe, não me sinto em paz,
nem adianta procurar-te em meio a tanta gente estranha,
misturar tua imagem tão viva quando te penso viva,
com a lembrança da morte que deforma e desfigura
e com lutos e flores convencionais.

Ah, depois que partiste
não gosto de pensar onde te encontras.
Em minha aflição,
hás de ter a certeza de que todo dia
é dia de finados
em meu coração.

J.G. de Araújo Jorge

domingo, 1 de novembro de 2009

Maria Antonieta.

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MARIA ANTONIETA

Dando a este poema alta feição de escudo,
arde-me em lava a ideia! Enfim aquilo
que este ouro der, este ouro que burilo
tem de radiar sob o cinzel agudo.

Rosas, acantos, símbolos... Ah! tudo
que afirme o império da que n’alma asilo!
Floreio o bronze; estro e lavor de estilo
neste ouro deixo e neste bronze estudo.

Febril, finos espíritos invoco...
Repontam signos, esmerilho a rima,
canta e brilha o zodíaco no bloco!

Ei-lo! Brasão da graça, a glória o anima;
e ao dar-lhe título, afinal, coloco
um diadema de pérolas em cima.

B. Lopes.
(1859-1916)
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